autor I Marcos Torati
psicólogo-psicanalista
 
 
SOBRE O LUTO

D e modo geral, luto é o processo psíquico ocasionado por uma reação à perda. Esta envolve um profundo sentimento de tristeza. Nas palavras de Freud, ocorre o "sumiço de alguma “abstração que ocupou o lugar de um ente querido”. Em sua obra Luto e Melancolia, o criador da psicanálise compreende o luto sadio como um trabalho passageiro. Para tanto, exige-se um determinado período de tempo para sua recuperação. Momentos onde o mundo interno despenderá de intensa atividade energética para se reorganizar diante da crise por perda. Suas etapas tendem a ser lentas, dolorosas e de grande instabilidade emocional. A priori, há um afastamento psicológico da vida normal. Surge no indivíduo um profundo desinteresse pelo mundo externo. A energia vital (ou libido) ainda se encontra conectada no ausente. Em função da profundida dos laços afetivos, na sensação de complementaridade entre o eu e o outro, não existe o reconhecimento da falta, portanto, uma separação equivale a sensação de ter perdido algo de si mesmo. Diferentemente da defesa maníaca, a qual ignora a falta e suplanta o próprio psiquismo no lugar, no luto não se combate a dor da perda com a pronta adoção de um novo afeto ou atividade. Para o enlutado, nada parece substituir seu ente amoroso. A dor da perda da pessoa é impossível de se representar. Ela se apresenta psiquicamente de maneira exaustiva rumo à elaboração.

TESTE DE REALIDADE

M esmo após a morte, a existência do objeto ainda persiste vivo na psique. Em função das fortes conexões afetivas, o falecimento não é o suficiente para que a pessoa desapareça. Requer-se um trabalho psicológico. Seu desligamento só ocorre por via de uma "concessão pessoal". Não á toa, os adeptos do candomblé utilizam a expressão: "canta para subir (alma)". As ambivalências emocionais (amor e ódio) sentidas em relação ao falecido são determinantes para a forma como dar-se-á o trabalho de luto. Quando o ausente não possui grande representação para o ego, sua falta não será suficientemente sentida para provocar luto, melancolia ou mania. Por outro lado, nos quadros patológicos, o sofrimento ocasionado não é transitório, o desaparecimento deste objeto de afeto pode até dar lugar a um desvio de realidade (psicose alucinatória). O reconhecimento consciente de que o objeto amado não existe mais na realidade já é por si só um sinal de saúde. Freud denominou esta capacidade de teste de realidade. A partir dele, o sujeito defronta-se com um dilema: manter o investimento naquele que fora extinto ou desunir-se dele para vivenciar o novo?

 
 
TODO LUTO É NARCÍSICO

D esde o nascimento, viver é um constante processo de perder. Na vida neurótica, a primeira perda é a dos prazeres do mundo infantil (perda da maternagem). Para a psicanálise, o processo de luto envolve também outras perdas simbólicas (emprego, fim do namoro e da adolescência, etc). Somente cada sujeito "sabe exatamente o que perdeu". Retornando ao caso da elaboração do luto por morte, o Eu carece de renunciar o objeto perdido, declará-lo morto para poder preservar o ego e prosseguir a vida. É tal desinvestimento que o permite encontrar novos substitutos. No luto, a causa da instabilidade emocional acha-se na tentativa do vivo em triunfar psiquicamente sobre a morte do ente querido. Por isso, o pensamento tende incessantemente à permanecer voltado para o finado, esta é uma forma de ainda preservá-lo no status de vivo. Através do seu desejo, o enlutado almeja superar a dura realidade da perda; sustenta o vínculo mesmo no vazio do objeto. A devoção ao luto é uma disposição dolorosa a fim de conservar o ente que partiu. Ao perdê-lo objetivamente, não almeja esvaziar-se dele subjetivamente. Na visão do psicanalista Jacques Lacan, o sofrimento do enlutado encontra-se aí: não na morte do ente em si, mas no fato do enlutado constantemente se deparar com sua ausência. Sofre diariamente ao perceber a falta externa do objeto interno que carrega consigo. Portanto, toda a perda é narcísica, egoística. Logo, num velório, ninguém chora pelo morto, mas pela falta de algo em si que perdera-se com a partida deste outro. Almejamos conservar na eternidade tudo o que diz respeito sobre nós. Nos antigos rituais nórdicos, por exemplo, no crematório de um nobre viking, junto cremava-se vivo seu cavalo e a serviçal preferida para acompanhá-lo até o céu. Já nas sabedorias tradicionais das culturas indígenas brasileiras, a alma do morto só parte quando a última pessoa que o conheceu não mais se recordar dele.

LUTO E MELANCOLIA

E mbora não seja o objetivo primário, farei uma breve consideração sobre a diferença entre o luto e a melancolia. Em ambos os quadros há um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse em relação ao mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade e um rebaixamento transitório da autoestima. Entretanto, a despeito desta última, na concepção freudiana, o melancólico se difere. Ele apresenta uma perturbação contínua da autoestima, se autorrecriminando e autodepreciando. Tudo isso culmina numa expectativa delirante de punição pela perda. Isto porque existe uma identificação do ego com o objeto. A perda objetal seria uma perda egóica. O sujeito sente-se o principal responsável pela separação. No íntimo, a autopunição do melancólico revela um segredo: um oculto sentimento de raiva por quem amou e sente tê-lo abandonado (física ou simbolicamente). Toda sua autocondenação é na realidade uma crítica odiosa a este objeto de amor (deslocada para si). Segundo Lacan, esta perda envolve uma culpa inconsciente. É como se o ódio escondido (desejo de morte) tivesse feito o outro partir. Por isso, em muitos casos, é comum a "santificação do morto", como se este fosse "um objeto todo bom", enquanto a pessoa seria "toda má". Evitam assumir que, por uma "insuficiência do objeto amado", o sujeito sentiu-se desvalorizado e/ou desamparado. O ódio reprimido pode levar o melancólico a idealizar a figura de afeto que não corresponde aos seus sentimentos. Diante dele, podem ou podiam chegar até a ser extremamente obedientes e tolerantes, mesmo quando rejeitado, maltratados ou ignorados, ansiado em troca sua validação afetiva. Procuram esconder de si o fato que objeto de amor é ou foi incapaz de amá-lo o tanto quanto gostaria. Contudo, sem tal admissão, inviabiliza-se o trabalho de luto.

 
 
LUTO, MORTE E RELIGIÃO

A morte é a ferida narcísica dos homens, o único acontecimento natural triunfante sobre ele. A negação da impermanência (exceto dos inimigos) é uma reação primitiva do psiquismo humano. Uma angústia atenuada pela crença numa vida posterior, o alicerce central das religiões. Tomando como referência a definição do filósofo Durkheim, o papel das religiões é "nos ajudar a viver", aliviar as mazelas humanas. Quando alguém significativo falece, a vida parece ter "perdido a graça". Nesse sentido, diante das dores do luto, recorrer a fé pode ser uma experiência reconfortante. Nela, há respostas para o incompreendido e inconcebível. Através dela, a morte ganha um sentido "prêt-à-porter" (pronto a vestir), colocando o ser como parte integrante de um propósito maior. Entretanto, apesar do raciocínio religioso reconhecer o fim da efêmera vida carnal, em geral, negam o término da existência, ou seja, nenhuma religião aceita a morte. Não trabalham o ser para o fim, mas, para continuar sua vida em outros planos ou corpos através de sua alma. Os ritos fúnebres servem para tornar a morte uma passagem. Transformá-la num túnel que reassegura o acesso a outras dimensões; garante o reencontro com os conhecidos e, acima de tudo, preserva o próprio existir. O pensamento religioso provém justamente da sensação de insuficiência e da fragilidade humana na Terra. Apenas pela fé se faz possível transcender o lugar de reles mortal e elevar-se ao patamar grandioso da "vida superior e infinita", imortalizando assim nosso valor narcísico e dos finados entes queridos.

A FÉ E A ANGÚSTIA DE MORTE

N a concepção freudiana, no íntimo, a própria morte é algo inimaginável. Esta informação não existe no inconsciente, pois este é contrário ao desprazer. Mas, se ninguém verdadeiramente sabe o que é morrer, o que haveria de se temer? No fundo, não se teme a morte em si, mas o seu nome. Teme-se o que nos matará, o símbolo representacional da finitude (exemplo: câncer, velhice, etc). O medo da morte no neurótico é análogo a angústia de castração, isto é, a tudo que pode ceifar seu poder, retirar sua capacidade e potência, ao que pode por em perigo sua integridade física e narcísica, incluindo a morte de uma pessoa querida. Especialmente no mundo ocidental, as doenças e a morte são tabus. Muitos as sentem como uma espécie de "castração divina", um castigo imposto pela supremacia das "vontades superiores" sobre os homens. A título de ilustração, na Eurásia, entre meados do século XIII até o início do século XIX, como reação à funesta pandemia da peste negra, surgira a seita cristã dos flagelantes. Seus membros acreditavam que tal moléstia resultara de uma condenação celestial por suas culpas. Creiam que por meio da autopunição corporal se expurgaria os males da humanidade e a peste seria controlada. Imaginavam que o sofrimento masoquista despertaria em Deus um sentimento misericordioso de piedade e que passaria a agir favorável aos interesses dos humanos. De acordo com a ótica psicanalítica, nenhum homem se subordina gratuitamente à algo ou alguém sem nada esperar. É pelo medo do desamparo e da finitude que ele dá em troca sua "subserviência". Ou seja, sem a sua angústia de morte não haveria Deus ou religião, pois é na religião e em Deus que o homem crê se proteger e vencer sua angústia de morte.

 
 
LUTO E RECUPERAÇÃO

I nduvidavelmente, a negação da morte é um dificultador do processo de elaboração do luto. As frases: "por quê comigo?" Ou "o que fiz para merecer isso?" são comuns na fase da recusa da perda. Mas, será mesmo que há meritocracia para morrer ou perder? Para Freud, todo homem deve para a vida uma morte. Enfim, cada um experimenta o luto de maneira singular, por isso, delimitar um tempo para seu término é relativo. Embora seja incomodo ser acometido pela conscientização da falta de alguém, somente por via das recordações que o indivíduo pode verdadeiramente caminhar em direção a um processo subjetivo de desligamento. As lembranças diárias trazem a oportunidade da pessoa recordar, repetir a recusa da morte e, aos poucos, elaborar a perda. O teste de realidade comprova sucessivas vezes que o objeto amado não mais existe. O preço a se pagar pela necessidade de preservar a própria vida é ter que romper o vínculo com o objeto amado ausente. Se esta ideia for suportável, ao invés de desejar morrer junto e retornar a um estado inorgânico como o falecido, sem outras interferências, o processo de recuperação resumir-se-á a uma questão de tempo e análises reflexivas. Quando o enlutado sente-se preparado para aceitar a perda, ele pode começar a desfazer-se dos pertences físicos do finado. Após um período de grande ressentimento, o luto conclui-se quando o indivíduo sente-se livre e desimpedido para viver o novo novamente. Ao observar toda a luta envolvida na superação do luto, se evidencia que, à priori, ninguém está preparado para lidar com a morte do que ama. A morte é algo que se admite e sem sua penosa admissão não se inicia o fim do luto.

GRAÇAS À MORTE

P or fim, ao viver numa sociedade a qual abnega o reconhecimento da falta e da finitude, a morte e seus símbolos não cessam em reincidir. Os avanços tecnológicos, as crenças, as fantasias e o imaginário afastam-nos do inevitável: o término da existência. Um tema negligenciado as crianças e aos adultos. Em prol da angústia, oculta-se a verdade, por isso, a morte não cessa em se reapresentar e causar fascínio sobre as pessoas. Uma demanda que se repete compulsivamente entre os mortais. Na recusa do fim, a vivência da morte e do luto é obrigada a se inscrever no corpo, no medo de adoecer, na preocupação excessiva com a vida (morte), etc. Para finalizar, embora no inconsciente pensemos ser imortais, a finitude é necessária. A vida acontece numa transição entre dois intervalos de tempo: antes de nascer e depois de morrer. Sem a morte não seria necessário desfrutar da vida. Ela não é só uma consequência, mas o motivo da vida! Freud, em citação a Schopenhauer, afirma que "a morte é o propósito da vida" e o instinto sexual é a corporificação da "vontade de viver". Ela é o último ato da vida e é por esta estar fadada ao fim que se deve viver. A morte do outro que amamos nos obriga a lidar com a temorosa ideia da impermanência. Na visão do filósofo Martin Heidegger, o homem que defronta-se com a morte e decide assumi-la em vida, tende a tornar sua existência autêntica, não recusando-se a desviar dos per causos da realidade que contraria o princípio dos nossos prazeres infantis. Desse pensamento também compartilha o psicanalista Donald Winnicott (1896 - 1971). Um autor que conseguiu satiricamente elaborar seu próprio luto. Foi capaz de despedir-se de si em vida: conseguiu estar vivo para poder morrer. Sob a mesma condição passam os enlutados, são forçados a despedir-se do pedaço de si que morreu, mas, para poderem viver.