autor I Marcos Torati
psicólogo-psicanalista
 
EXPERIMENTO

U m estudo com ratos realizado pela UFRS concluiu: filhotes que foram mais manipulados, lambidos e cuidados por suas mães no início da vida apresentaram melhor desenvolvimento cognitivo, adaptação às mudanças climáticas e ambientais, menor reatividade ao estresse e fortalecimento da capacidade imunológica. Quanto ao segundo grupo, composto por crias que sofreram privação do contato materno no período neonatal, foi possível evidenciar nos filhotes: temores frequentes, déficits de aprendizagem, incompleto desenvolvimento físico e psíquico e maior suscetibilidade à doenças. Embora esteja em discussão se é ético utilizar animais como cobaias para pesquisas, resta saber quais consequências terão os bebês humanos quando suas mães são precocemente afastadas no "experimento" do governo brasileiro de reduzir a licença-maternidade de 160 para 120 dias. Seria possível especular sobre seus impactos nas crianças?

MÃE-AMBIENTE

P ara o pediatra e psicanalista D. Winnicott, "não existe" bebê sem mãe! O que há é um conjunto ambiente/recém-nascido. Logo, a saúde e a sobrevivência do in-fans (em latim: aquele que não possui fala) depende da adaptação estável e da capacidade materna de identificar–se ativamente para com ele. Cuidar vai muito além da satisfação mecânica de demandas fisiológicas. Assim como nos ratos, o investimento afetivo-emocional materno contido nesse ato é uma ferramenta vital no processo de desenvolvimento cerebral do nenê. No animal humano, a maternagem bem-sucedida favorece o sentimento de segurança; os primórdios do amor, da bondade; da individualidade; desenvolvendo nele a capacidade de crer em si e nos outros. Quando os cuidados são suficientemente bons, não é a mãe quem cria o bebê, na ilusão onipotente do bebê é ele quem sente ter inventado a mãe, a qual já existia ali para ser, "criada", surgindo magicamente sempre que necessitar ser encontra. De modo acolhedor, ela o assegura que haverá paz para suas inquietudes. Todavia, o oposto dessa harmoniosa descrição evoca o risco da tragédia existencial: a não integração do eu.

 
 
AGONIA

S em afetividade e cuidados adequados, confiáveis, consistentes e estáveis no começo da primeira infância, o animal humano pode psicotizar, adoecer do ponto de vista físico e mental, não vir-á organizar-se integralmente como uma unidade psicossomática. Em casos extremos, pode até morrer por inanição. Isto porque, nesse período, falhas graves nessa forma especial de amparo não são sentidas pelo lactente como uma simples "frustração da vida". Suas defesas psíquicas naturais atuam e reagem contra essa "agonia primitiva" como um atentado à existência, uma ameaça de aniquilamento! Nas citações de W. Bion: um "terror sem nome" numa época onde não há representações simbólicas por meio das palavras. O ego rudimentar do bebê não tem condições para suportar um ataque tão indefensável como o do desamparo, a não ser não integrando-se como uma pessoa. Biologicamente ele vive, mas poderá não ser capaz de existir como ser sadio. Segundo o psicanalista John Rickman, é enlouquecedor não achar alguém na vida que o suporte.

FALHAS

A despeito da licença-maternidade, na fase de dependência absoluta da criança, em especialmente no período de 0 a 6 meses de vida, a teoria winnicottiana é categórica ao afirmar que falhas ambientais repetidas nesse período podem gerar danos emocionais irreparáveis. A perda abrupta na qualidade e continuidade previsível dos cuidados maternos deixam graves sequelas. Para Winnicott, dentre as patologias básicas derivadas desse trauma ambiental, destacam-se: a esquizofrenia infantil ou autismo, esquizofrenia latente, o falso self como defesa, personalidade esquizóide e os "casos-limite". A interrupção ou a ausência no atendimento das necessidades básicas infantis são favorecedoras as manifestações psicóticas, isto é, uma organização psíquica defensiva a qual o sujeito permanece aprisionado dentro de si mesmo como um lugar seguro, estável e protegido contra o mundo, tendo dificuldades no contato com a realidade.

 
 
SINTOMAS

P róximo do fim dos 4 meses de licença, imaginando que tenha ocorrido uma boa maternagem até o presente momento, quando os pais tem a sorte de encontrar cuidadores substitutos que sejam capazes de prover esses cuidados maternos suficientemente bons, as falhas podem ser corrigidas a tempo sem tornar-se uma privação ou um trauma infantil. Assim, a criança tem a possibilidade de continuar à sua existência, estando apta a suportar naturalmente as próximas falhas dos pais-ambiente. Do contrário, alguns sintomas somáticos podem sinalizar fragilidades na relação entre pais-bebê ou cuidador(es)-bebê. Dentre elas, se evidenciam, principalmente, disfunções nas atividades vitais sem evidenciar uma causa orgânica, como por exemplo: distúrbios do sono (insônia); dificuldades na alimentação (ausência de fome e desinteresse na sucção do seio); complicações respiratórias (asma infantil); constantes problemas digestivos, gástricos (cólica, soluço, prisão de ventre e diarreia) e doenças de pele (eczemas e alergias cutâneas).

DESAMPARO

E m última análise, do ponto de vista psicológico, a experiência da redução da licença maternidade é prejudicial para os bebês e suas mães. Ao tratar das mulheres em fase de aleitamento como meros agentes produtivos, a constituição brasileira legaliza o direito do desamparo. Aos filhos deste solo, a pátria amada não parece ser "mãe", nem "gentil". Ela assemelha-se a um bebê voraz e incompadecidamente impiedoso! O qual suga egoísticamente ao máximo toda a energia das lactantes. Um filho bastardo que exige ser reconhecido como legítimo, o primogênito sem rivais, que detesta dividir o seio furtado da mãe que não decidiu pari-lo, crendo tê-la por direito. Enquanto a mãe dolorosamente deixa seu bebê para amamentar a máquina econômica do Estado, sua criança a aguarda... em geral, chupando compensatoriamente os próprios dedos, na alucinação do seio que fora perdido, aludindo, substitutivamente, na própria mão, a boa mãe que sumiu.