autor I Marcos Torati
psicólogo-psicanalista
 
 
UMA PERDA DE SI NO OUTRO

P artindo das literaturas clássicas, ao menos de início, bem como no processo de luto, os quadros melancólicos também se designam aos que passaram por uma profunda experiência de perda. Atualmente, tal psicogênese foi popularizada como depressão. Freud considerava que, em função de um forte sofrimento instaurado por uma perda afetiva (real e/ou simbólica), o sujeito acabara por retornar sua energia vital para si, de forma egoística. Por isso, inicialmente, Freud considerou as depressões como uma forma de “neurose narcísica”. Em sua visão, os melancólicos sofrem por possuírem fragilidades em seu próprio senso de valor. Alguém que se vê aquém de um eu ideal, isto é, de uma função imaginativa que corresponderia e completaria as (supostas) expectativas dos outros sobre ele (pais, sociedade, parceiros afetivos, etc). Ao assim fazer, crê que será devidamente amado. Quando seus objetos de afeto não retribuem e o gratificam, tende a punir-se e julgar-se como inferior. É através do amor do outro que ele visa a curar um narcisismo ferido, uma autoimagem depreciada. Talvez, o filósofo Friedrich Nietzsche se fizera certo: "a exigência de ser amado é a maior das pretensões", somos mais sensíveis ao desprezo alheio do que o nosso.

AUTOESTIMA REBAIXADA

N os primeiros estudos psicanalíticos, o sofrimento autodepreciativo do melancólico não era compreendido com clareza. Desconhecia-se a gênese do que de fato este sujeito perdera em sua perda. Embora estivesse cônscio da falta do seu objeto de afeto, as motivações de seu sofrimento pareciam transcender o evento traumático em si. Freud suspeitou que no quadro de melancolia havia uma “perturbação da autoestima”, algo que se encontrava ausente no processo de luto. Enquanto para o enlutado é o mundo que se tornara momentaneamente pobre e vazio pela morte do objeto de amor, na melancolia é o próprio ego que se empobrecera pela ausência do outro. Isto porque há uma identificação da pessoa para com o seu objeto abandonado. Portanto, na concepção freudiana, esta perda objetal transformou-se numa falta egóica: "a sombra do objeto caiu sobre o ego e a pessoa". Tal fenômeno impede com que o trabalho do luto seja “puramente” vivenciado e devidamente elaborado. Por essas razões, frequentemente o melancólico se expõe como alguém desinteressante e desinteressado, exibindo predominantemente só as facetas negativas do seu Eu. Pode-se ver mesquinho e incapaz. Para Freud, este indivíduo "deve ter boas razões para isso". Sendo assim, pouco se deve contestar suas declarações, pois tendem a ser refratários a elogios e a tentativas de desmascaramento desta verdade autodesvalorativa.

 
 
O ÓDIO NO AMOR

M as, por qual motivo alguém julgaria o seu ego e o tomaria como seu objeto de ódio? Freud desvendou que as próprias críticas do melancólico contra si eram, no fundo, um ataque severo a outrem. Alguém que o paciente ama, amou ou deveria amar em sua vida e este não corresponde ou correspondeu. Ele compreendeu que a perda melancólica era de ordem ideal, isto é: o seu objeto de afeto não necessariamente morreu, mas, se perdera como objeto de amor para ele. Por algum motivo, este mudou; abandonou; desinvestiu ou, por que não? O próprio sujeito passou a vê-lo como realmente é (perda simbólica); sendo doloroso admitir que este não é como espera. Toda a sua autorrecriminação e autocrítica perseverante estão inconscientemente direcionadas ao seu objeto de amor não gratificado. Os ataques foram deslocados do objeto para seu ego. Ademais, encontra dificuldades em abandonar este objeto, mesmo que o faça sofrer. Não sabe se pode fazê-lo. Seria insuportável perceber que identificar-se-iam justamente com os rejeitantes e abandonadores. Por conseguinte, muitos ficam em relações abusivas, numa dinâmica sadomasoquista. Quanto mais desaprovam o outro, mais deparam-se com a ideia de que são pessoas "más", buscando reparar seus "erros", revivendo então um ciclo eterno entre culpa e reparação.

AMBIVALÊNCIA EMOCIONAL

N o âmbito dos relacionamentos afetivos, a gênese do conflito melancólico se dá por sua ambivalência emocional (um elemento natural da psicodinâmica das relações amorosas). Diante da recusa psíquica pela perda do objeto amoroso, o ódio e o amor passaram a se digladiar no âmago do ser criando uma confusão interna. Segundo Melanie Klein, respectivos pacientes vivem uma confusão: ou ele é uma pessoa toda "má" ou toda "boa". Em vários momentos, sentem-se desorganizados, não sabem se os maus são eles ou os outros. Para tanto, chegam a privar-se de sua individualidade para que o outro não os critique ou os odeie. De alguma forma, ele sabe que sua escolha afetiva não é satisfatoriamente recíproca, porém, tal admissão legítima pode culminar em ter seu Eu destroçado. Frente ao medo da perda do outro (perda de si), só lhes resta submeter-se. Seu próprio ataque torna-se uma defesa diante do risco de não serem amados. Desse modo, o indivíduo acaba por absorver todas as culpas e falhas pelo fracasso da relação. Assim, degradam-se, penalizam e se enfurecer contra si mesmo. Ao voltar o ódio exclusivamente para a sua pessoa, refugia seu objeto de afeto no ego, protegendo-o(se) da extinção.

 
 
A ESPERANÇA NO SOFRIMENTO

Q uanto mais o melancólico se responsabilizar e se acusar do quanto é desprezível, mais irrealiza o luto e a separação. Constantemente perguntam ao seu analista sobre o que devem fazer. Aguardam que este se posicione por eles. Podem se enraivecer com o profissional por conta disso. Na sessão, chegam a passar minutos lamuriando, gastam o tempo para não serem confrontados, evitando tocar no núcleo de seu conflito com profundidade. Tendem a ser resistentes a mudança. Tal compreensão auxilia no entendimento do porquê algumas pessoas permanecem anos em relações disfuncionais. Mesmo sendo maltratadas e humilhadas, aguardam ansiosas por um reconhecimento ou uma validação afetiva. Ficam à espera da consagração de um sentimento amoroso que não chega. Esperam só que este outro mude, a qualquer custo. Por consequência, deixam de se reconhecer como agentes de sua própria história. Afirmam suportar tudo isso por considerar ao outro. Parecem dadivosos. Alguns podem tolerar passivamente traições e racionalizar as falhas do parceiro(a), avaliando o quanto isto possui relação com a sua insuficiência como pessoas. Preferem torturar-se e até desejar internamente que este outro suma ou tome a decisão de terminar do que ele decidir separar-se. Em sua maioria, é cabível ser vítima do que autor do "crime moral" que condena. No entendimento psicodinâmico de Sandór Ferenczi, resta ao melancólico refugiar-se na figura de observador de sua vida.

AMOR, ÓDIO E AUTODEGRADAÇÃO

D e modo indireto, em sua fantasias inconscientes, certos pacientes melancólicos conseguem pelo caminho da autopunição vingar-se do objeto original que lhes fizeram mal (em geral, os cuidadores). A pessoa a qual projeta sua desordem emocional, normalmente encontra-se próxima. Quanto mais sofrem, mais anseiam que este outro repare sua dor. A autotortura também se faz um método esperançoso para ser amado e ter seu desejo atendido sem diretamente reinvindicá-lo. Podem confessar seu sofrimento aos amigos do amado, esperando que este relate a ele. Postam indiretas nas redes sociais sobre o seu mal-estar com a finalidade de serem percebidos. Fazem pressões indiretas e supostamente inocentes, seria como se dissessem: "Não é você quem me faz mal, sou eu quem sofro". No dia-a-dia, podem usar de um semblante triste. Aguardam que ele desperte um sentimento de culpa e responsabilidade no outro. Pagam o preço de ter o dia estragado em vista da consideração alheia. Vive-se o martírio de pedir sem mandar e, ao pedir e não ser atendido, já não se o que fazer. Quando todos esses esforços não surtem resultados, sentem-se abusados. Muitos carregam a sensação de que o mundo é hostil e lhe odeia. Na realidade, esta pode ser uma forma de falar sobre seu ódio do outro, do mundo! Narram que as pessoas riem de sua fragilidade, que estão tirando sarro, uma satisfação sádica de sua dor. A serviçalidade em prol dos desejos de aceitação os fazem sentir como abjetos. Algo para o "gozo sádico" da pessoa. Alguém consumido e expelido como um objeto fecal, o qual se retém e se expulsa sem importar-se. Acabam, costumeiramente, tornando-se pessoas maçantes. Dão a impressão de que estão sendo desconsideradas e que foram tratadas com injustiça. Quando não correspondidos afetivamente, em sua aparente subserviência a pessoa em benefício próprio, sentem-se tolos e arrependidos. No mais, os quadros melancólicos derivam de questões profundas, as quais devem ser analisadas singularmente.

 
 
O ÓDIO DO OUTRO EM SI MESMO

E m considerações finais sobre a concepção freudiana, a identificação melancólica resume-se em se autorreconhecer no objeto de perda. Sua relação com o objeto de afeto é especular, sendo este um duplo de si mesmo. Nesta alienação, ele se faz dependente e prisioneiro de sua dor. Supõe que a pessoa amada não o ama ou amou por ser insuficiente para ela. Neste Eu, identificado com o objeto abandonador, instala-se uma instância crítica, a qual o acusa de que perdeu o ente querido porque “não é bom o suficiente”. Segundo Jacobson, um paciente deprimido torna-se, então, vítima de um superego exigente e perfeccionista, tão desamparado e sem poder como uma criança pequena que é torturada por seu pai ou mãe cruel e poderoso (figura castradora). Barganham por afeto. A degradação de sua autoimagem é uma forma inconsciente de mascarar a verdade inaceitável: que o outro não foi digno de amá-lo como deseja. Culpabiliza-se para ocultar o fato entristecedor e vergonhoso. É em função deste ódio sobre o outro que os melancólicos têm tanto orgulho em dizer o quanto são ruins e insignificantes! No fundo, a queixa repulsiva sobre si é um "ataque oculto" a este outro o qual ama/odeia e se identifica. Difama-se pelo ente amoroso não lhe dar o reconhecimento afetivo esperado. Nos quadros mais patológicos, o sentimento de inferioridade moral é completado pela da insônia e recusa em se alimentar.

MELANCOLIA, MANIA E SUICÍDIO

A característica mais notável do sofrimento melancólico é sua tendência em transformá-la em mania. Diferentemente do luto, na mania há um triunfo sobre o objeto perdido. O melancólico, a fim de evitar entrar em contato com seu sofrimento emocional, passa a encobrir (de si) sua frustração, a dependência e a fragilidade de seu objeto amoroso perdido. Nega-se a necessidade de se relacionar profundamente com alguém. Na compreensão de M.Klein, esta é uma postura defensiva, um desejo de triunfo por aquele que sente ter triunfado sobre ele. A mania nada se difere da melancolia, porém ambas lutam contra o mesmo complexo, a dor da separação. Na mania, alguns pacientes podem se sentir grandiosos, livres após a perda do outro, falam de um mágico estado de bem-estar após a perda do objeto amado (real ou imaginário). Enquanto na melancolia, o ego sucumbe ao complexo, na mania, ela o domina ou põe de lado. O sofrimento da perda é mascarado por comportamentos eufóricos e compulsivos (exemplos: trabalho excessivo; a compulsão a bebida, sexo, drogas, etc.). Em períodos de crise, esta pessoa passa a ser "reconhecida como se pouco importasse para seus problemas. Frequentemente, há um curso recaídas periódicas, oscilando entre episódios de depressão e mania. É justamente no sadismo autodirigido do melancólico que se soluciona o enigma de sua tendência ao suicídio. Ao final da excitação maníaca, a analise do melancólico revela que o ego só pode cometer suicido – se for capaz de dirigir contra si a hostilidade relacionada ao objeto, se o ódio por este for mais forte do que amor por si próprio. O suicídio seria o assassinato deste outro em si mesmo. Para alguns, é a única saída perante a angústia da separação e da verdade desoladora.

 
 
FALHAS NO AMBIENTE

A fim de complementar as visões anteriores, vale citar outras contribuições para o surgimento dos quadros de melancolia. Ela pode atingir os pacientes que sofreram na infância e a adolescência uma forte sensação de desamparo, solidão e medos crônicos de serem abandonados e ficarem desprotegidos, vide o polêmico experimento de Harlow (não recomendado para pessoas sensíveis). Nas palavras de Freud (1889), "o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais". Segundo John Bowlby, as perdas precoces na infância e juventude podem desencadear uma vulnerabilidade à depressão na vida adulta. A ausência ou instabilidade no padrão emocional do vínculo com os criadores (perda simbólica), pode fazer com que a criança se sinta não merecedora de amor, passando a ver as figuras de afeto como possíveis abandonadores. Alguém que não se pode confiar ou depender. O constante fechamento na própria tristeza é a defesa para não correr o risco de se desiludirem afetivamente. Nos estudos de Arieti, os melancólicos sentem-se fracassados por não conseguir satisfazer as figuras parentais, transferindo esse conflito para outras figuras amorosas, sejam elas pessoas físicas ou jurídicas. No âmbito profissional, podem trabalhar para ganhar o amor ou a contemplação de um chefe, por exemplo. Um pagamento mais valioso do que dinheiro. Aliás, alguns utilizam do dinheiro para "ajudar(-se)" (n)os pais que não lhes reconhecem. Subordinam-se a um outro a fim evitar a repetição do destino trágico da falta de amor, porém, a luta é a tragédia atual!

PERDAS NA INFÂNCIA (REAIS E/OU SIMBÓLICAS)

P ara o psicanalista Karl Abraham, a depressão na fase adulta pode surgir em função de uma nova perda ou desapontamento amoroso. Seria como se reabrisse uma ferida não cicatrizada, seja ela uma privação afetiva real ou imaginária. Normalmente, muitos melancólicos, especialmente do tipo anaclítico, passaram por fortes situações de ruptura dos laços de confiabilidade, à citar: a separação dos pais; a ausência parental pelo trabalho; o adoecimento materno; o nascimento de um irmão ou outro evento que venha a tomar da criança seu investimento afetivo; a negligência nos cuidados; abusos físicos, sexuais e psicológicos; o abandono dos cuidadores ou sua morte, etc. Certos depressivos são emocionalmente imaturos. Sua autoestima baseia-se no jogo especular, se for amada por este Grande Outro, ama-se, se não, odeia-se. A busca por um outro é a tentativa de achar seu próprio amor. Logo, um abandono (ocasionado ou não por morte) pode ser significado como uma comprovação de sua falta de valor pessoal, um atestado de sua "desprezibilidade". Além disso, nem sempre os melancólicos se apresentam humildes ou submissos. Determinados pacientes carregam uma sensação de que o "mundo lhe deve algo", fazem de sua fragilidade e da vitimização como uma forma de "justiça" na esperança de ganhar o investimento amoroso desejado. Entretanto, tal conduta instaurará uma insegurança pessoal: não saberão se são amados por quem são ou por despertar a misericórdia alheia. Quando nem isso funciona, as consequências podem ser profundamente lancinantes.

ODIAR É UMA CONQUISTA DO AMADURECIMENTO

E m última análise, o ódio é um afeto originário do amor. Tão intensa é a necessidade de ser amado que um indivíduo é capaz de adoecer, sacrificar-se, escravizar-se e ter uma vida íntima miserável por isso. A psicanálise descobriu que na visão melancólica, se objeto se perde é o sujeito quem some. Se o indivíduo ama-se no outro, o fim deste equivale psiquicamente ao seu próprio. O medo é que a falta do outro revele a própria ausência. A esses, ter alguém é uma via para sentirem-se existindo, por pior que seja a vida conjugal. A sustentação de relacionamentos disfuncionais não se dá por acaso, mas por um encontro de patologias de ambas as partes. Quando alguns terapeutas não percebem a profundidade da questão, creem que o término de um relacionamento nocivo é o suficiente. Deixam de ver que esta seria a expressão final da conquista do próprio universo pessoal. Na visão de Donald Winnicott, só é possível vir a se diferenciar, se personalizar e se perceber como um “self" pessoal, aqueles que conseguem dizer "não", declarar-se separado”, mesmo estando na presença do outro. O direito ao ódio representa uma conquista no desenvolvimento emocional humano. É o que nos permite separar sem destruir, ser inteiros, sadios e civilizados. Os que a isso evitam transformam-se em reféns dos próprios complexos.