autor I Marcos Torati
psicólogo-psicanalista
 
 
A REPRESSÃO DO DESEJO NO NEGRO

N os tempos da escravidão no Brasil, os negros eram privados dos bens de consumo. Inicialmente, a proibição deste direito foi um marcador étnico, um divisor de classes sociais e raciais. Os brancos dominantes coibiam as expressões de poder e outras formas de ostentação dos dominados. Assim, impunham-lhes à força um lugar simbólico: o negro como um sujeito à margem da sociedade. Alguém que deveria minimizar seus desejos pessoais e se dar por satisfeito com o suprimento de necessidades básicas. Ao longo da história, a herança dessas privações criaram estigmas profundos em sua subjetividade. Para melhor compreender este impacto dinâmico através da ótica psicanalítica, Sigmund Freud denominou de o "retorno do recalcado" o processo pelo qual os elementos reprimidos, armazenados no inconsciente, tendem a reaparecer na consciência ou no comportamento pessoal (ou coletivo) de maneira deformada ou distorcida. O conteúdo recalcado, impedido de se concretizar, mantém seu impulso inicial. Deseja penetrar e se inscrever como possibilidade. Assim, visa-se uma satisfação e o alívio das tensões internas não realizadas.

HIPERCONSUMISMO E LIBERDADE

P artindo deste conceito freudiano, desde a abolição da escravatura, as censuras brancas deixaram resíduos inconscientes e afetaram na maneira como os afro-brasileiros lidam com seus desejos. Como reação as proibições ao gozo de outrora, emergiu um reativo movimento reparatório. Toda a humilhação e as feridas narcísicas criadas entorno de sua imagem foram proporcionalmente combatidas por meio do fortalecimento de seu sentimento de orgulho. Por séculos, os africanos eram considerados pelos europeus como um povo ágrafo (sem escrita) e sem história. Seu papel narrativo ocupado na História brasileira foi o de coadjuvante das "versões oficiais" portuguesas. Isto impulsionou a criação do "presentismo negro" nos livros educacionais contemporâneos, termo empregado por François Hartog. Quanto a repressão dos direitos ao consumo impostas pelo regime escravocrata, o retorno deste desejo recalcado emergiu para muitos afrodescendentes sob a forma de “hiperconsumismo"e ostentação", símbolos distorcidos de alforria, inclusão e igualdade. Nas palavras do antropólogo Lívio Sansone, aconteceu na sociedade moderna um certo “hedonismo negro”. A autovalorização e as demonstração de poder foram as respostas diante do ultrajante racismo e do preconceito eurocêntrico. Lamentavelmente, nos dias atuais, é através do exibicionismo dos bens materiais que muitos podem ter o sentimento de pertencimento social, mesmo que de modo aparente, enquanto a tal "justiça social" não se faz. Por outro lado, acerca deste último ponto, será que alguns não estão à mercê de buscar valor, identificação cultural e autenticação da negritude pelas vias do consumismo?

 
 
O NOVO TRÁFICO NEGREIRO

E Toda essa tentativa de reconstituir um senso de identidade negra tornou-se um prato cheio para os interesses mercadológicos. Em função da repressão dos tempos coloniais, hoje, os objetos capitalistas (carro, relógio, pulseiras, correntes, etc) símbolos daquilo que vulgarmente chama-se de "riqueza" são exibidos glamourosamente pela "pobreza", num aparente triunfo dos marginalizados sobre o determinismo criado para seu lugar no mundo. O retorno do conteúdo recalcado trouxe como parte integrante da “cultura negra moderna”, a associação entre consumismo e status social, a exemplo do funk ostentação e do "gangsta rap". Tal movimento atinge, principalmente, os jovens negros e miscigenados de classes sociais menos favorecidas, em geral, nas periferias. Embora uma parte dessa juventude queira lutar para fortalecer seu senso de identidade étnica e cultural, o distanciamento, o desconhecimento e a desvalorização em relação às suas raízes e tradições africanas e afro-baianas deixam-os a mercê dos interesses midiáticos e comerciais. Estes, que antes negligenciavam o africanismo, hoje, por sua vez, detém o poder para classificar, definir, redefinir, padronizar e reintrojetar desvirtuadamente o que é “cultura negra” na atual sociedade. Frente ao abismo simbólico criado do que é ser descendente de africanos na América, criou-se então um lucrativo nicho de mercado: o consumo étnico.

A AFRICANIDADE PERDIDA

A inda sobre o dinamismo da escravidão, o desejo de todo senhor não é aniquilar seu rival, mas justamente mantê-lo vivo para usufruir dele. Conservá-lo como testemunha e espelho de sua superioridade. Antigamente, o gozo dos donos de engenho estava em obrigar o escravo a livrá-lo dos desprazeres da vida cotidiana. Contudo, no mundo capitalista atual, os "senhores" não dominam mais seus "escravos" privando-os de prazer, mas, pelo inverso: inebriando-os pela satisfação. Controlam-os suprindo suas faltas. Não à toa, existe um investimento financeiro colossal na área de tecnologia da informação e em banco de dados para saber "o que consumidor quer". Saciam a carência simbólica vendendo-lhes objetos concretos como símbolos da negritude na América (normalmente associados a cultura de rua). Um grande grupo de afro-descendentes tem os consumido para substituir alucinatoriamente o fantasma do real objeto perdido: a conexão com a África. Retomando Freud, todo o desejo é marcado pela falta de algo que se perdera no passado, dessa maneira, o que os afro-descendentes tentam incessantemente reparar é a lacuna deixada pelo distanciamento da identidade africana e o estigma da exclusão social.

 
 
ESFORÇOS IDENTITÁRIOS

E nquanto na Bahia a cultura afro-baiana vem sendo representada tipicamente pelo candomblé, incluindo as “autênticas baianas”, a capoeira, as mulheres do acarajé e sua arte culinária, um seguimento da cultura negra moderna acabou se solidificado pela aparência, pelo status, através dos cortes de cabelo; roupas; jóias; corpo; maquiagens; gestos, gírias e modo de andar. Quando isto não se alia ao contato com as memórias, histórias e raízes ancestrais, torna-se mais uma roupagem fetichista da era pós-moderna. O revestimento externo pelo consumismo é uma tentativa de "ser alguém", porém, tais caminhos fortalecem os estereótipos estéticos e comportamentais do que significa ser negro. O branqueamento dos Meios de Comunicação patrocina o mito da democracia racial, confeccionando símbolos culturais que carregam apenas a aura de tradição. O vazio do objeto perdido da ancestralidade e o marketing retroalimentam uma filosofia rastaquera.

O DIREITO DE SER

E m última análise, embora sejam numerosos, poucos afro-descendentes puderam desenvolver interesse por suas origens em função dos efeitos nocivos da escravidão. Grande parte desconhece o tráfico humano e miscigenação entre os próprios negros na África. O efeito colateral do importante movimento pan-africano foi reafirmar o negro como um único povo, ao invés de um conjunto de tribos, culturas e etnias diferentes. Suas singularidades foram excluídas pelos colonizadores que os generalizavam grosseiramente. Quanto ao almejar do direito de ostentar a luxúria material da nobreza, isto é desejar a maior expressão da "miséria existencial européia". No mais, em termos winnicottianos, a conquista mais profunda de um humano não é o desejo de poder, mas, acima de tudo, a possibilidade de desfrutar da experiência de ser. Explorar ao máximo suas capacidades e potencialidades, para tanto, requer-se encontrar um ambiente humano favorável ao seu desenvolvimento. Embora haja sempre um preço a se pagar por sermos "seres sociais", o desejo do negro em sociedade é justamente um dia não ser vítima do lugar colocado para o seu ser social.