autor I Marcos Torati
psicólogo-psicanalista
 
(IN)VERDADES

E m psicanálise, a fala do paciente enuncia o encontro, tanto quanto o silêncio. Ali, no espaço terapêutico, se fala, se cala, se ouve e, também, se "especula na fé e no testemunho", como disse Jacques Lacan. Às vezes o sujeito do discurso nada conta; nega; falha; distorce; resiste; esquece; fantasia; dissimula e, até, engana, entretanto, assim mesmo, sempre comunica. Ainda que a fala seja falácia, a mentira revela sempre uma faceta da verdade daquele ser, pois todo o pensamento precede a um pensador e a escolha de uma "máscara" social denuncia a personalidade do seu intérprete. Nas sucintas palavras da psicóloga francesa Monique Augras: "Ponha a máscara, e eu te direi quem é".

PRAZER

u m mentiroso pode ser analisado? Perguntou o psicanalista inglês Wilfred Bion. Sim, todo o mentiroso abriga um núcleo verdadeiro. Ademais, a mentira necessita de um receptor, pede a presença de um outro, no caso, o "outro" a se tentar enganar é a si mesmo, portanto, ela se reproduzirá na situação analítica. O segredo possui poros, a exemplo dos chistes e atos falhos. Ao fechar-se a boca, "falam-se as pontas dos dedos" como já dissera Freud. Mentir, nem sempre tem o dolo de enganar, mas, de se defender, de sonegar uma verdade inconsciente, um evento inaceitável o qual tenta fazê-lo não verdade. Nos dizeres de Mario Quintana: "a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer". Ele tem razão, a etimologia da palavra "verdade" vem do grego "aletheia", significando: "não esquecimento". Portanto, mentira não é o mesmo que falsidade, mas, certamente é uma distorção da verdade. O gozo do mentiroso está em colocar o princípio do prazer acima do princípio da realidade, manipulando-a. Tenta pelo discurso fazer possível a causa impossível. Por isso, em muitos casos, em função do medo da rejeição, quando esse falso eu passa a ser tratado como verdadeiro, é comum o sentimento de futilidade e a desrealização com a própria vida.

 
 
AUTOENGANO

N a generalização de Meltzer, toda a psicopatologia resulta do "autoengano". A despeito dos quadros clínicos, denomina-se como mitomaníaco o indivíduo que perde a dimensão do que é real e fantasia ao mentir. Este passa a contar pequenas ou complexas “inverdades” compulsivamente, sem controle, até mesmo sobre o que é irrelevante. No fundo, tal hábito pode esconder uma autoestima rebaixada, alguém que está em luta para ser visto e considerado como grandioso, ocultando um sentimento inconsciente de insegurança e menos-valia. Não é de se surpreender, por exemplo, que nas condenações de políticos por corrupção é perceptível o semblante de alívio de certos acusados quando são desmascarados. Adjunto ao medo das punições, em alguns existe também o prazer da confissão. Através dela, se pode aliviar a tensão de sustentar as farsas. A passagem bíblica "só a verdade vos libertará" cai bem ao neurótico, pois, sua prisão interna dar-se-á quando ele não abdica de suas ilusões narcisistas, vivenciando-as como se as fossem seu eu verdadeiro. Ademais, no caso citado, a aceitação do desmascaramento feito tanto pela justiça, quanto pela figura do psicanalista, está à mercê do reconhecimento delas como entidades verdadeiras por excelência. Estes devem analisar sua integridade.

CLÍNICA

A cerca do setting psicanalítico, para Freud, a relação entre analista e paciente deve, acima de tudo, apenas se fundar no "amor à verdade". Para tanto, a regra da associação livre é a via régia para essa escuta atenciosa. A análise das resistências e dos sentimentos transferenciais em direção ao analista também devem ser caminhos explorados nesse trabalho. Todavia, na ótica winnicottiana, considera-se que a habilidade do paciente exprimir-se oralmente não está, necessariamente, fundada na aquisição da linguagem, mas sim pautada na relação de confiabilidade desenvolvida para com a figura do analista. Nessa abordagem, a comunicação silenciosa e o direito da não expressão verbal também são formas de linguagens inconscientes, tão válidas quanto a pronúncia oral das palavras. O silêncio do paciente fala, bem como suas faltas. A percepção da mentira deve ser compreendida como uma forma de resistência e suas motivações merecem ser investigadas. Até a recorrente afirmação na sessão: "hoje não tenho nada para falar", já subjaz um dizer . Em suma, mesmo havendo teorias distintas, o trabalho psicanalítico ainda dedica-se a arte da compreensão da linguagem não dita do animal humano.

 
 
MENTIMOS

S inteticamente, toda expressão humana é verdadeira, incluindo suas inverdades. Ela é mais uma forma de atuação das fantasias, uma imposição forjada do próprio desejo. Sendo assim, a realidade subjetiva é a que prevalece na experiência clínica. De certo modo, mentir possibilita trazer algum alívio para os conflitos psíquicos. Porém, quando há um núcleo sadio no indivíduo, ela pode produzir um sentimento de culpa moral. Nem toda mentira é dissimulação, as vezes é simulação de um eu ideal., ocultação da falta-a-ser. Num "self normal" ou amadurecido, em certa medida, ela é um recurso importante para a adaptação em sociedade. Quando há um uso consciente e responsável dela, ou seja, na intencionalidade de brincar momentaneamente ou proteger o direito à privacidade, sem ter por finalidade e consequência o comprometimento significativo da vida de outrem, por que a condenar? No mais, a mentira não necessariamente é o oposto da verdade, tampouco é sinônimo arbitrário de falsidade e, se quer, deve obrigatoriamente ser compreendida como desvio de caráter. Aliás, sem mentira, segredo ou omissão da verdade não haveria política e civilização. Por fim, todos nós, sem exceção, somos seres essencialmente mentirosos, contudo, nem por isso somos todos fraudulentos e perversamente desonestos.