autor I Marcos Torati
psicólogo-psicanalista
 
DESBEATIFICAÇÃO MATERNA

S obre as perversidades e perversões maternas (narcisista), este é um assunto amplo e controverso. Destarte, para um entendimento inicial, segundo Zimerman, etimologicamente perversão (do latim: “per + vertere”) significa “desvirtuar, pôr às avessas". Isto pode ir além das questões psicológicas. Esbarra em composições éticas, ideológicas e jurídicas. Obviamente, o quadro clínico citado não escapa as mulheres, as quais já são ou serão mães. As perversões maternas desafiam o Essencialismo Filosófico. Agridem as visões culturalmente românticas. Contraria a crendice de um “instinto materno” inato. Confronta e insulta a idealização da pureza materna e as tentativas de sacralizar a imagem das genitoras. No mais, as perversões maternas, igualmente a qualquer outra, tendem a causar repúdio religioso, moral, social e, por que não, o amor e o ódio de seus filhos?

PREOCUPAÇÃO MATERNA PRIMÁRIA

D e modo introdutório, enquanto nas neuroses o sujeito é completamente capaz de discriminar o “eu dos outros”, nas psicoses há uma profunda confusão destes lugares. Já no caso das perversões, a alteridade (não Eu) não se acha totalmente internalizada no universo psíquico deste sujeito. Desse modo, muitas mães perversas (narcisistas), encontram dificuldades em entrar num real "estado de preocupação materna primária". Este conceito foi descrito pelo psicanalista D.Winnicott e se refere a um estado psicológico materno especial. Trata-se da sensibilidade e da capacidade desta conseguir identificar-se com sua cria, o que supostamente favorece a promoção de cuidados suficientemente bons. Na visão de Kohut, o comportamento perverso desta mãe provém de uma reação as falhas de empatia de sua genitora. Logo, sua maternagem pode tornar-se comprometida. Suas limitações no papel materno subjazem um tétrico infortúnio: o fato dessas mães nunca terem sido respeitadas primeiramente como filhas e seres humanos.

FILHOS COMO FETICHE

M cdougall reserva a expressão perversão somente para aqueles que impõe seus desejos pessoais e se aproveitam do outro sem o seu consentir. Isto inclui os seres ainda não maduros ou responsáveis, como as crianças, por exemplo. A falta de capacidade empática da mãe perversa a impulsiona à subordinar seus filhos numa condição de fetiche. Eles não são mais objetos imaginários, nem ainda simbólicos. São tomados incompadecidamente só como seus objetos subjetivos. Um meio para o gozo dela. Não há a outridade. Segundo Lacan, o desejo na perversão não se manifesta como uma pergunta por qual é o desejo do Outro. Ao contrário, ele se torna uma resposta pronta e inflexível. A mãe perversa (narcisista) almeja um incondicional assujeitamento de suas crianças. Os manipula de diversos jeitos. Isto para que se prestem unicamente a formar com ela um conluio inconsciente. São postos e reduzidos ao lugar de meros personagens de suas fantasias. Acima deles está o júbilo de sua volições. Este é o clássico cenário das mães perversas.

 
 
PARES ANTITÉTICOS

S em considerar o próximo, a mãe perversa projeta nos filhos a imagem de um parceiro(a) que consinta e complete a ilusão daquilo que procura. A vulnerabilidade subjetiva de uma criança é um terreno propício para o sequestro psicológico da mãe perversa (narcisista). Sem tratamento adequado, esta condição de refém pode durar por toda a vida. Quando adultos, muitos sabotam sua independência e individualidade. Para não desaboná-la e vir a perder o frágil amor, procuram minimizar as diferencias para com ela. Nisso, é comum abrirem mão da liberdade, evitam sair, voltar tarde, namorar, casar ou ter filhos. Os cônjuges são potenciais rivais. Certas mães perversas podem interferir para minar a união de seus filhos com outro alguém. Deixá-la e escapar de seus grilhões pode instituir uma sensação de traição. Separar-se dela se assemelha a um pecado. A influencia da moral judaico-cristã é também um importante fator desse aprisionamento. Torturosamente, sacrificam-se feito cordeiros para para ficar e honrar suas vontades (mesmo no auge de seu sadismo). De diversas maneiras, os filhos engrenam-se com a mãe a fim de formar um perfeito par antitético, isto é: tornam-se a antítese dela. Se imbricam feito uma peça de encaixe em seus mecanismos mentais. Para exemplificar: justapõem-se ao seu sadismo, sofrendo masoquisticamente. Assim, a noção de amor se perverte, funde-se e se confunde com o ódio, frutificando sentimentos de culpa. Isso edifica um complexo paradoxo: ora os filhos se sentem vítimas, mocinhos, vilões e cúmplices de um cruel jogo inconsciente.

RELAÇÃO SADOMASOQUISTA

N a concepção freudiana, os sintomas neuróticos são justamente uma transformação das fantasias perversas recalcadas. Diferentemente das mães neuróticas, as perversas conseguem atuar suas fantasias cruéis como uma atividade consciente, sem arcar com o peso dos remorsos. Freud constatou que qualquer perversão "ativa" estava sempre acompanhada por sua contrapartida "passiva". Ou seja, no sadismo materno há uma essência masoquista, enquanto no masoquismo do filho, esconde-se um núcleo sádico. Consequentemente, certos filhos se convencem firmemente de que merecem ser punidos e retaliados por ocultarem seus desejos sádicos em direção a ela. Não é de se estranhar que alguns sejam empáticos às motivações Suzane von Richthofen. É como se já conhecessem as razões de seu crime, tendo ela a coragem de por em prática a vontade a qual reprimem: "de matar os pais". Aliás, Freud na obra Totem e tabu, considera que a agressividade primitiva e a culpa são oriundas das proibições culturais em relação ao mito do parricídio primordial (assassinato dos pais). Retornando a questão, completar o fetichismo materno pela repressão sádica foi o meio encontrado pela criança de sentir-se útil e amada pela mãe. A condição imaginária estabelecida para serem dignas de carinho e amor é a subserviência.

MEDO DA SEPARAÇÃO

A poiado na leitura de Fenichel, é válido considerar que o sofrimento masoquista dos filhos parece estar ligado a um martírio: aceitar o mal da tortura do que ser destituído completamente de uma importância afetiva para a mãe. Neste jogo especular, a separação deste outro é sentida como uma perda de si mesmo. Motivados pelo medo do desamparo (internalização inconsciente do maior temor da mãe perversa), se rendem aos seus abusos. Isso os defende contra a ansiedade de separação que fora instaurada pela alienação materna. Frequentemente, se autopersuadem para continuar sustentando o vínculo parental sadomasoquista. Justificam sua falta de ousadia para deixá-la através do medo da solidão. Escondem-se no sentimento de "pena" e culpa, considerando como "ela" (ele mesmo) ficará se vier a faltar. No âmago, sentem que talvez este seja o único formato de relacionamento existente. Em seu núcleo masoquista é preferível sofrer num relacionamento abusivo e disfuncional do que o abandono. Utilizando a fala de uma paciente de Robert Stolorow: “a dor física é melhor do que a morte espiritual". Por vezes, a submissão ou a tirania podem ser meios de evitar o risco da solidão e da sensação de desintegração como sujeito.

 
 
ENIGMA MATERNO

A os filhos, os atos perversos maternos são permeados por mistérios. Muitos não compreendem o porquê delas os rejeitarem, abandoarem, negligenciarem e serem cruéis. Na onipotência infantil, tais condutas são imaginadas como uma espécie de castigo. Uma merecida punição por uma suposta ação inadequada realizada a qual desconhecem. Revisitam constantemente a seguinte pergunta: "o que será que eu fiz?" A ausência de uma resposta lógica para desvendar a incógnita das condutas perversas maternas os consome. Os angústia por todo o dia. A fim de atenuar as ansiedades persecutórias deixada pelos conteúdos enigmáticos maternos, podem se punir e autoincriminar sem saber ao certo "qual crime cometeram". Na dúvida, realizam esforços físicos e mentais colossais para agradá-la. Cada vez mais passam a se adequar e satisfazer as suas vontades. Ansiosamente, visam conhecer o que ela deseja para saber como devem ser, reagir e proceder. Todavia, esta voluntariosa obediência não é uma expressão do amor genuíno, ao contrário, é uma defesa contra o medo de receber "maldades gratuitas". Consequentemente, se materializa o imaterializável da perversão materna: os filhos tornaram-se seus servos emocionais.

AMEAÇA DE ANIQUILAMENTO

N a mãe perversa, há um profundo medo da perda de identidade. As compulsões perversas, como procedimento fixado e ritualizado, são formas de protegê-la contra "o risco de um não ser". Manipular os filhos para orbitarem ao seu entorno foi o automedicamento para conter suas angústias de morte e a desintegração psicótica. Controlá-los como objetos de sua fantasia a mantém psicologicamente ativa e supostamente defendida da ameaça do abandono e da separação (do outro e de si). Para Kohut, as manifestações perversas são fenômenos secundários após a quebra de sua unidade psicológica primária. Uma reação da criança diante da angustiante experiência da ausência de respostas empáticas de seus pais. Para o autor, tenta-se aí resgatar um estado de fusão perdido com a mãe. A perversão materna quase sempre visa encontrar uma “falta” de algo ou de alguém de seu passado. Clinicamente, é recorrente observar no relato das mães perversas a presença de “pais pervertizantes” em suas histórias. Dentre os casos, isto também pode se dar através de excessos de investimentos afetivos no filho. À citar, a insistência num vínculo fusionado, cujo o qual a mãe busca a construção de um par simbiótico, sufocante sedutor e narcisista. Ela pode engrandecê-lo e utilizá-lo como sua extensão narcísica, tal qual ocorreu na relação entre Klara (mãe) e Adolf Hitler (filho).

SCRIPTS DE FUNCIONAMENTO

J oyce Mcdougall observou o drama psicológico contido em cada criança na interação familiar. Como deles nascem os scripts (roteiros), os padrões no modo de estabelecer os contatos afetivos com o mundo interno e externo. O resultado para alguns filhos vítimas de perversidades maternas pode ser a compulsão pela repetição deste modelo. Mesmo sabendo não ser sadio, ao adultecer, são capazes de transferir e imputar (inconscientemente) essa dinâmica aos parceiro(a)s e filhos. Quererem reencontrar a onipotência da "tirania amorosa", tanto para se submeter, quanto para se opor. Um relacionamento livre desta dinâmica pode soar-lhe estranho, fugir ao sentido. A falta das perversões, ciúmes, dores e abusos chegam até a despertar um sentimento de não existência ou de abandono amoroso. O modelo de experiência e maturidade amorosa desses filhos pode ser frágil, fundado apenas no sacrifício masoquista. São capazes de se assujeitar a situações degradantes, tolerar inúmeras traições, por exemplo, apenas para os dominar o outro pela via da culpa e da reparação, instaurando em seus parceiro(a)s uma dívida moral, tal qual fizera sua mãe.

 
 
PERVERSÃO X PERVERSIDADE

P ara avançar na compreensão do tema, é de suma importância fazer alguns discernimentos. Apesar de todos os perversos serem narcisistas, nem todos os narcisistas são perversos. O aspecto diferencial das modalidades narcísicas está na forma de relação estabelecida com a alteridade. Enquanto o neurótico gera sintomas e o psicótico cria alucinações, na perversão se faz fetiches. Embora elas derivem de fixações narcisistas e se vinculem ao conceito de crueldade, não é verossímil reduzir a perversão à crueldade. Vale destacar que há diferenças básicas entre perversão e as perversidades comuns. Em síntese, enquanto a primeira pode ser pensada como um estruturação defensiva contra angústias persecutórias, depressivas e uma luta para evitar o desamparo e a ameaça de castração no renegar do outro, a perversidade ordinária se figura num caráter atuado de crueldade e malignidade. Ao contrário da mãe perversa, nas perversidades maternas há nelas uma dimensão moral. Caso necessário, existe nelas uma pré-disposição para experimentar uma culpa genuína. Visando fazer o "bem" aos filhos, podem chegar a impor bruscamente suas vontades pessoais. Ás vezes, para "salvá-los" da repetição de seus próprios medos e traumas infantis, muitas mães instituem o cumprimento de suas fantasias. Assim, são capazes de cometer perversidades, os dominando e penitenciando se escaparem de seus anseios.

PERVERSÃO X PSICOPATIA

C omo visto brevemente, a perversão clínica é uma modalidade de relacionamento que ignora uma ligação autêntica com a alteridade; se atua o poder de seduzir, dominar ou explorar a outra pessoa. Ela se distingui da transferência perversa, a qual está presente tanto em pacientes perversos quanto em outros transtornos. Objetivando realizar uma outra distinção, a perversão e a psicopatia também podem ser confundidas, pois ambas são inerentes à natureza humana. A despeito desta última, muitos autores a concebem como um transtorno psíquico engendrado no plano de conduta transgressora antissocial. A título de ilustração, a organização psicopática, por assim dizer, é composta por três características básicas: a impulsividade, a repetitividade compulsiva e as atuações malignas, irresponsáveis e livres de culpa ou remorso, tendo suas ações como fins em si mesmas.

UMA FORMA ERÓTICA DO ÓDIO

D o ponto de vista psicanalítico, as noções sobre perversão foram além da conceituação clássica dos postulados iniciais sobre um transtorno desviante da sexualidade normal. Elas possuem varias causas. Freud era sensível quanto as multifacetações das gêneses das perversões. Acerca de suas possíveis origens e desdobramentos, na concepção de Stoller, a perversão seria “uma forma erótica do ódio”. Clinicamente, as mães perversas são guiadas por fantasias de se vingar dos traumas infantis humilhantes causados por seus pais. Para ele, as frequentes atitudes sádicas são tentativas de reverter os cenários os quais foram vitimas de abusos psicológicos, físicos ou sexuais. Podem infligir aos outros o que ocorreu com elas quando criança. A vingança está na expressão do desejo de degradar ao outro. Querem desumanizar, humilhar, corromper e submeter os filhos e terceiros aos seus fetiches perversos. Todos esses eventos odiosos geram prazer. Numa transferência inconsciente, as mães perversas podem se vingar de seus pais na relação com seus filhos. Na desforra há, ao mesmo tempo, a sensação de domínio e controle sobre o trauma. Porém, segundo Berger, o desejo de transcender a essa degradação é impossível, portanto, nunca é preenchido e culminado, favorecendo sua tendência à repetir.

 
 
DIFICULDADE DE VÍNCULOS

N o passado, pode-se considerar que a mãe perversa (narcisista) teve um processo de separação e individuação incompleto de sua genitora. Segundo Parsons, o comportamento perverso nasce da incapacidade de tolerar a “qualidade de serem diferentes” de uma pessoa separada. O jogo perverso é permeado pela defesa contra o reconhecimento da outra pessoa "como inteira", real e diferente. Sentem que sua identidade pode ser ameaçada pela fusão ou pelo engolfamento com as pessoas. Os perversos sofrem de identificações patogênicas. Para eles, a intimidade é algo perigoso ou mortal na infância. Na fase adulta, continuam evitando. Lacan afirma que a perversão surge como uma proteção contra a angústia de ser devorado pelo desejo insaciável da mãe. A objetificação é um triunfo sobre os domínios desta mãe internalizada. Mitchel pensa na perversão como uma saída das relações interpessoais mais profundas. Inviabilizam sua entrega afetiva. Tais ansiedades são deslocadas para os filhos ou companheiro(a). Um jeito inconsciente de retaliar a mãe interna é recusar afeto e carinho aos filhos. Se ela mesma não pôde gozar deste privilégio, por que eles poderiam? Assim, blindam-se contra a entrega amorosa usando como escudo as perversidades adquiridas com seus pais.

NARCISISMO MATERNO

E m seus estudos, Freud compreende que as pessoas narcisistas e/ou perversas sofreram perturbações no desenvolvimento libidinal. Isto as levou a "adotar a si mesmas como um objeto amoroso". Seu modelo de identificação tornou-se o absolutismo de seu próprio eu (fixação no narcisismo primário). Haja visto que o narcisismo é inerente ao quadro perverso, em algum momento da vida, a criança, filha de uma mãe perversa e/ou narcisista, pode ter cultuado sua figura materna com intensa admiração. A crença na onipotência da mãe fazia o mundo parecer um conto de fadas. Entretanto, o desencanto amoroso dos filhos começa quando são capazes de perceber a mãe como uma figura total e não mais como um modelo de perfeição. Ao reconhecerem sua falibilidade e serem capazes de produzir alguma crítica interna sobre isso, enxergam na mãe narcisista a manipulação e seu modelo de amor condicional. Notam que a necessidade dela não se acha na direção de amar, mas apenas de serem amadas e aduladas. Aqueles que melhor preencherem aos seus fetiches, podem até cair em suas boas graças. Esta descoberta da criança ou do adolescente pode ser sentida como uma enorme traição. Uma desilusão causadora de repugnância e de uma enorme sensação de solidão. Sentem-se como objetos, que sua vida familiar foi uma farsa (princípio de realidade). Freud vê aí um risco: o medo da criança em perder do amor da "mãe ideal internalizada". No fundo, tanto a mãe narcisista quanto a criança (naturalmente) só amavam as idealizações sobre o outro. Com isso, ou repetem, deprimem ou amadurecem.

ÓDIO DO DUPLO

D e modo otimista, Freud considerava que, mesmo para as mulheres narcisistas, há um caminho que pode conduzi-las ao amor objetal: o nascimento de um filho. Para o autor, é comum os pais idealizá-los como perfeitos, sendo eles a representação de seu ego ideal. Os criam para ser uma espécie de “duplo de si mesmos”. Porém, em muitos casos, especialmente quando as mães narcisistas possuem meninas, por exemplo, deparar-se com semelhanças pode ser um fenômeno insuportável. Ao se reconhecerem nela, é comum surgir o ódio e o risco da perda de sua unicidade narcisística. Uma ameça de roubar o valor singular de sua identidade. Instaura-se assim uma relação de rivalidade e competitividade, muito semelhante a uma disputa fraterna pelo amor dos pais ("quem é a preferida?"). As bases desta hostilidade e da inveja materna com as filhas decorrem de sentimentos infantis originários de sua configuração familiar pregressa. A repulsa das filhas pode fazê-la descumprir incumbências maternas e atuar perversidades. As filhas, em geral, podem deprimir por se sentirem desamparadas, negligenciadas ou rejeitadas.

 
 
SOBRE SER A "MÃE DA MÃE"

N o narcisismo materno é também recorrente haver a rejeição do filho “estranho”. Isto é: quando este se desfusiona da mãe e se difere de seu reflexo, deixando de corresponder aos seus ideais de ego. Em outros termos, os filhos perdem sua graça quando justamente passam a ser "a si mesmos". Para algumas mães isto afronta suas fantasias de perfeição, completude e onipotência. Uma das grandes dificuldades quando suas “criaturas” fogem à imagem e semelhança da “criadora” acha-se, principalmente, no fato delas desconhecerem seu desejo de “puni-los” por isso. Conforme a maturidade egóica da mãe, podem surgir determinados medos e chantagens emocionais. A saúde, a independência e a autonomia do filho geram em algumas delas um ódio e um profundo temor do abandono. Na tentativa de não atuarem suas perversidades contra eles, sintomas como hipocondria, queixa excessivas, sofrimento crônico, infantilismo ou a síndrome do bebe adulto, são recursos para mantê-los ali. Isto pode coagi-los a ocupar um papel quase maternal, assumindo um lugar de "mãe da mãe". Em boa parte das situações clínicas, quando o paciente tenta libertar-se disso, logo surge uma culpa violenta. Ao crescer, este filho teme sentir-se como um abandonador, não de uma mulher adulta, mas de uma criança do ponto de vista emocional.

CISÃO DA PERSONALIDADE

U m outro fator desencadeador de uma confusão emocional nos filhos é a clivagem da personalidade da mãe perversa. Uma das particularidades deste quadro é a busca por ocultar sua perversão. Sua tentativa é sustentar socialmente a “fachada de boa mãe e ser humano”. Frente à terceiros, é capaz de porta-se de modo adequado e civilizado. Sedutoramente, consegue conquistar a admiração alheia e os elogios por sua conduta ética e cordial no ambiente profissional. Aliás, no narcisismo perverso é frequente a colocação dos filhos e de terceiros como voyeurs de seu exibicionismo, usando-os como testemunhas de suas proezas e grandiosidade. Desse modo, as críticas feitas pelos filhos ao seu respeito podem soar como absurdas aos ouvidos alheios. Porém, no convívio íntimo, as pessoas mais próximas constatam outras versões. A mentira para o outro é também uma via de ocultação da verdade para si. Vive-se aí uma ideologia baseada na crença de que melhor vive quem consegue “mentir ou fingir". Em suma, uma duplicidade capaz de ser flagrada. Enquanto uma parte mantém um policiamento ativo dos seus ímpetos perversos, a outra sabota para triunfar suas pulsões, tornando-a realidade. Embora pareçam condutas antagônicas e dissociadas, ambas compõe a totalidade de seu perfil clínico. Uma das funções do psicoanalista é poder trazer à luz esta “dialética perversa” travada em seu interior.

TÉDIO E TABU

C omo abordado anteriormente, orna-se fundamental reconhecer que o modo perverso de funcionamento torna-se uma grande tentativa de livrar-se de uma experiência de morte psicológica. Para algumas mães portadoras deste quadro, o único projeto de vida para sentirem-se vivas e não abandonadas é controlar seus filhos. Fazê-los viver ao seu e redor e em prol de seu culto. Mesmo fisicamente saudáveis, algumas mulheres podem até não trabalhar para serem sustentadas fisicamente e emocionalmente por eles ou seus companheiro(a)s. Ao assim tê-los, vivem uma falsa impressão de que são alguém e estão vivas, mas, no fundo temem olhar para si e ver suas lacunas. Na visão Lacaniana, a mãe perversa (narcisista) age como um objeto de gozo dos filhos. Embora pareça independente, ela é comandada pela tentativa de comandar, fazendo esforços repetitivos e intermináveis para os dominar. Ao delegar aos filhos ou ao parceiro(a) a responsabilidade por sua satisfação ou sofrimento, sua vida pode ser acompanhada de um crônico sentimento de vazio, tédio e falsidade. O maior terror de uma mãe perversa é a angustia do desamparo.

 
 
AUSÊNCIA DE EMPATIA

N a mãe perversa há uma negação da dependência. Elas veem o desejo alheio como uma tentativa de doutrinação, domínio e controle, um meio para desqualificá-la. Todavia, é ela quem os desqualifica e os controla. Parecem ignorar suas falas e sentimentos profundos. Trata-os feito abjeto. O ódio, a agressividade e a transgressão dos limites revelam-se como formas de denegá-los. Sua intenção inconsciente é subverter os papeis. As atuações (acting outs) excessivas são caminhos para impedir a elaboração e forjar um suposto “estado de completude” e independência do outro. Sua baixa tolerância à frustração pode fazê-las negar, ignorar, esquivar ou resistir ao contato com a verdades. Através de seus sintomas, goza da experiência de viver um eu ideal onipotente. O absolutismo do seu Eu reitera seu desapego da culpa. Assim, delegam aos seus pares o assumir de todo o peso das responsabilidades para permanecer bem com ela. Mesmo que os filhos lhe confessem amor, implorem e se desmoronem em prantos para buscar melhorar seu relacionamento para com ela, isto tudo pode ser tratado com frieza e desprezo. Inclusive, é possível ocorrer até mesmo o oposto, serem retaliados por terem se queixado. Vê-los sofrer por ela, alimenta um sigiloso prazer: perceber-se como o centro da vida de alguém.

COMPLEXO DA MÃE MORTA

C onsiderando os estudos clínicos, a maioria dos filhos que passaram por repetidos sofrimentos masoquistas com seus pais, ficam presos em organizar toda a sua vida em busca de satisfazer as necessidades de terceiros. Querem aprovação. Sentem que sua pessoa foi insuficiente para despertar um "brilho nos olhos da mãe", como afirmara Kohut. Na obra de André Green, o complexo da mãe morta, foi um termo empregado para falar do desinvestimento afetivo-emocional materno e da morte simbólica do objeto mãe. A “mãe morta” não se refere a uma perda real da mãe, mas representacional, por esta encontrar-se emocionalmente ausente com os filhos. Isto pode ocorrer devido a um adoecimento psíquico, passageiro ou estrutural. Tal ruptura é forte o suficiente para desencadear uma depressão infantil. As raízes deste trauma podem ser divididas em duas centrais: a criança, solitariamente, é forçada a realizar o luto do “assassinato” de sua mãe biologicamente viva, mas "afetivamente morta". Em segundo, por haver uma identificação inconsciente com esta mãe morta, o que está sob ameaça é a constituição de sua autoimagem. Nas palavras de Winnicott, “o primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe”, mas se esta encontra-se emocionalmente falecida, existencialmente é ele quem está finado.

E O PAI?"

E mbora muito tenha se falado sobre a mãe, o papel paterno é imprescindível. Quando esta figura não corrobora com as perversões maternas, a saúde do filhos pode ser protegida e resgatada. Aliás, muitos pais conseguem realizar uma maternagem e, até, defender suas crias de uma mãe psiquicamente adoecida. Contudo, a omissão paterna também pode ser considerada uma expressão da perversidade passiva. Lembremos do Tribunal de Nuremberg, onde A.Eichmann confessou deportar judeus para os campos de extermínio sem qualquer remorso. Por estar só seguindo ordens, dizia não ter nenhuma responsabilidade. Mencionando Martin Luther King: "o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons". Na família, pode haver entre os cônjuges um par perverso. Comumente, nos noticiários testemunhamos histórias de pais que compactuaram com a tortura, abusos, maus-tratos e, até, com o homicídio de seus filhos ou enteados. A manutenção de uma relação deste tipo se deve ao segredo, o qual deve ser velado pelo casal. Se um deles for denunciado e vier a público, o contrato é anulado e o pacto amoroso se desfaz. Os amargura de um filho perante as perversidades parentais pode desencorajá-lo de amar, bem como de ser pai ou mãe. Para além dos pais que repetiram a psicomorfológica sadomasoquista com os filhos, há aqueles que conseguiram ser amorosos, dando a eles o que nunca tiveram.

 
 
PERVERSIDADE CULTURAL

N um olhar psicossocial, na cultura do narcisismo, do hedonismo, do legalizar das relações objetais e das práticas desleais da política e do mercado econômico, algumas perversões passaram a ser tecidas como fenômenos socialmente naturais, adentrando a constituição psíquica do sujeito em formação. Tudo isso pode instaurar uma confusão entre sujeito e objeto, transformar impulsos perversos em ideologia e prática de vida. Para o psicólogo Joel Birman, no mundo contemporâneo as perversões são uma "forma privilegiada de subjetivação". Sem dúvida, tudo isso influencia no modo de exercer a maternidade e educar os filhos. Clinicamente, é possível observar como para algumas mães o papel materno e o lugar dos filhos ficaram em últimos planos. Em geral, atrás da fêmea sexual, do eterno gozo adolescente e da priorização de suas metas pessoais e profissionais. Sobre isso, gostaria de introduzir o tema final. Abordar um modo muito particular de perversidade materna moderna: a atuada contra os bebês ou crianças de tenra idade.

DROGANDO OS BEBÊS

N uma gravidez indesejada, na depressão pós-parto ou quando a mãe, por alguma razão, não consegue entrar em estado de preocupação materna primária (conforme descrito), a maternagem pode ser um fardo. Para D.Winnicott, um bebê almeja satisfação e alívio imediato. Sua avidez canibaliza o corpo da mãe. Ele ceifa: tempo; sono; liberdade; individualidade e a privacidade dos pais. Quando a mãe possui ódio e não se vê capaz de identificar-se com sua cria, é comum ser tomada por um sentimento de culpa. Uma forma muito peculiar para "anular" esta culpa moral é a superproteção como forma de reparação. No fundo, a mãe pode estar defendendo a criança não do mundo, mas dela própria, de seu potencial destrutivo inaceitável. Embora não tenha coragem de assassinar um bebê, pode cometer perversidades contra ele. Uma delas é sufocá-lo com o prazer! Satisfazer a criança ao máximo visando arrebatá-la. Mantê-la num estado quase mórbido (viva-morta). Para livrar-se dela, a mãe a entorpece. Aniquila sua vivacidade infantil hipnotizando-a com o celular, tablet, computador e a televisão. Querem inebriá-las com recursos eletrotônicos. O entretenimento digital aqui não é utilizado como ferramenta pedagógica, mas como um ópio, um jeito de viciá-las para não a incomodar. Os sedativos digitais são usados para extinguir suas pulsões de vida. Não seria isso uma forma velada de perversidade?

AMAMENTAÇÃO PERVERTIZANTE

S obre as perversidades maternas no período de lactação, o desejos de morte reprimido contra o infans (latim: sem fala) podem se manifestar no ato da amamentação. Para algumas mães, a lactação se transforma num ato mecânico. Seu único objetivo é alimentá-lo, não buscando o contato ocular ou a vinculação com a criança. Aqui, o peito é utilizado com frequência na tentativa de nocauteá-lo. O objetivo é neutralizá-lo, não para saciar a fome, mas calar o ser. O seio é levado a boca da criança para que esta deixe de incomodar a mãe. Este leite intrusivamente invade o bebê no intento de calar o choro e aplacar o surgimento de demandas (tentativa de aniquilamento). A mesma função silenciadora pode ser realizada com o uso da chupeta ou da mamadeira. Em última análise, restará aos filhos sobreviventes das perversões e perversidades na criação materna uma árdua tarefa: se recriarem. Para D.Winnicott, esta é a maior criatividade humana: ser capaz de "ser ", se fazer e refazer seu próprio Eu no tempo. Poder reinventar-se para além dos ecos deixados pelos outros. Mencionando Sartre: "o que você fez com o que fizeram com você"?