autor I Marcos Torati
psicólogo-psicanalista
 
VIAS, NÃO DESVIOS

N o século XIX, a homossexualidade era tratada por diversos sexólogos como uma "inversão sexual", pois se imaginava existir apenas uma "única versão" para a sexualidade humana. Entretanto, para a psicanálise, não há norma sexual. Desse modo, qualquer tentativa de padronização, tanto para heterossexual quanto para homossexual, dar-se-á por mera convenção ou coerção sociocultural, política e religiosa. Na origem, todo ser humano possui uma "disposição bissexual", não biológica! Mas, psicológica, afirmara Freud. Logo, o "real desejo" homo ou heterossexual não é uma "opção", mas sim uma escolha de objeto que se impôs de modo inconsciente ao sujeito. Um fenômeno psíquico, ocorrido sem consciência e consentimento. O surgimento do desejo pelo mesmo, oposto ou por ambos os sexos, não devem ser concebidos como "desvios" ou desencontros, mas, "vias" de reencontro do indivíduo para consigo, com sua verdade íntima ou vontade pessoal.

IDENTIDADE DE GÊNERO

A o nascer, o animal humano vem ao mundo com o órgão sexual masculino ou feminino. Entretanto, isto não significa o mesmo que ser "homem" ou "mulher". Nas fases iniciais de vida, tal informação ainda não encontra-se disponível para a subjetividade humana. Viemos ao mundo desconhecendo nosso próprio sexo. A título de curiosidade, no caso do hermafroditismo, por exemplo, onde o indivíduo possui ambos os sexos, ou seja, uma bissexualidade biológica, é possível elucidar com clareza como os aspectos afetivos-emocionais e sociológicos impactam fortemente na orientação sexual de uma pessoa. Crer na existência de uma tendência "puramente herdada" para a atração por um gênero específico sem perpassar, obrigatoriamente, por uma história de vida é demasiadamente leviano. A despeito da construção da sexualidade, o que há para Freud são fenômenos relacionados às pulsões. Esta pode se expressar de dois modos: ativo (fálico) ou passivo (castrado) na formação psicológica da identidade sexual. Assim, a identidade de gênero dar-se-á por via das identificações no que concerne o "masculino" ou "feminino" na vivência edípica e pré-edípica. Portanto, o desejo sexual latente tenderá a se aflorar mais para um do que para o outro sexo, predominando então as tendências hétero ou homossexuais.

 
 
SEXO E MORAL

S e faz válido também diferenciar pulsão sexual (a qual não existe objeto definido), do aspecto biológico da atividade reprodutora (a qual possui), tendo em vista que prazer e laços amorosos não estão exclusivamente a serviço dos fins reprodutivos, tampouco da crença mítica da complementariedade entre os sexos opostos e, se quer, de uma moral natural. Aliás, moralidade, é uma criação humana, mesmo quando ela é pronunciada como vontade divina. Nas palavras de Winnicott: "o homem continua a criar e recriar Deus" como um lugar seguro para depositar nele o que é próprio do homem. Assim, o preconceito é legalizado por ser categorizado como subserviência, mera serventia das vontades celestiais.

HETERONORMATIVIDADE

S e de fato há um determinismo inato o qual está inclinado instintivamente para a heterossexualidade, cabe então realizar as seguintes perguntas: por que se preocupar com a orientação sexual nas escolas? Por que censurar o beijo gay na televisão? Por qual razão escolher brinquedos masculinos para meninos e femininos para meninas? Se o é de "ordem natural", por que temer tais influências externas? Não seriam todos esses esforços defensivos, moralistas e repressores uma tentativa de negação? Um reflexo da falta de fé na candura desta convicção? Uma luta para preservar uma fantasia romântica sobre a natureza humana? Ao pressupor uma "essência heterossexual", as homossexualidades passam a ser concebidas como corrupções do verdadeiro "espírito humano". Mas, será que realmente existe " a normalidade"? Ou os tabus culturais não foram criados justamente para se fazer uma? Estes não servem para proteger a humanidade dela mesma? Contra uma natureza pulsional animalesca sem objeto pré-determinado?

 
 
PADRÕES DE CONDUTA

O utro ponto relevante a se destacar é a influência dos desejos parentais no "forjar" do gênero sexual dos filhos. Em muitos famílias, costumeiramente, quando o filho parece não corresponder as expectativas do direcionamento sexual dado, além da recriminação, vê-se também a abnegação, a criação de um pacto de silêncio entre seus membros. Mesmo com a abertura pública para se debater este tema, a sociedade ainda parece despreparada para lidar com as expressões da sexualidade. Para alguns, o conservadorismo se faz uma solução contra o medo da "legalização a homossexualidade", como se esta fosse sinônimo de perversidade e depravação. Em geral, quando ela assim se revela, a agressividade dos comportamentos compulsivamente libertinos surge como uma reação as forças condenatórias exercidas sobre o eu do sujeito, havendo, para muitos deles, uma dificuldade em reconhecer a linha tênue entre o que é liberdade e libertinagem.

PRECONCEITO

P or fim, é o desconhecimento sobre a natureza da sexualidade que torna os não heterossexuais "aberrações". Indivíduos dignos de vergonha e preconceito, os quais muitos acabam por refugiar-se no anonimato das selvas de pedra das grandes cidades, o abrigo secreto das criaturas selvagens nos contos de fada da vida real. Não seriam os "justos", os ditos "normais", os guardiões da moral e dos "bons" costumes os que tornam anormais e doentes os entes deles diferentes? Ao invés da condenação do semelhante, não estaria a cura para a "doença alheia" no tratamento das próprias miopias pessoais?