autor I Marcos Torati
psicólogo-psicanalista
 
QUOD ME NUTRIT ME DESTRUIT

A ilusão ou a desilusão amorosa só existe porque os laços humanos são tecidos nas malhas da fantasia (ou delírio de cada um). Assim, todo pacto de compromisso que imagina-se ter num relacionamento é pura ficção. Cremos que se amamos, logo seremos amados. No aforismo da psicanálise lacaniana, "todo amor é recíproco", mesmo quando não correspondido. Quando o outro parece corresponder, as realidades psíquicas individuais se interseccionam, dão a impressão de ser uma só. Ao assumir casar ou namorar para formalizar um laço amoroso que vai além do comprometimento para consigo e com o outro, ambos os amantes podem crer na "concretização do ato amoroso". Entretanto, "amar" não é um status, é um processo. A duração do sentimento por alguém jamais é estática, inquestionável e infinita, mas, dinâmica, questionável e possivelmente esgotável. Quando o amor é retribuído e se tem a impressão de ser amado, a autoestima do sujeito eleva-se. Eis aí sua graça e desgraça! ("quod me nutrit me destruit" - "o que me alimenta me destrói", Nietzsche) Ao contrário dos astutos dos contos de fada que logo finalizam as histórias românticas com "e viveram felizes para sempre", fazendo-nos esquecer das adversidades e da perecibilidade da união amorosa, no mundo real existe o risco do término e da infelicidade conjugal. Em resumo: a tão prometida felicidade amorosa é uma ilusão, não há garantias.

AMAMO-NOS NO OUTRO

V iver a dois é um constante desafio. A presença deste outro impacta, incomoda. Retira o ser de sua zona de conforto individualista. Sem amor, não é possível se conhecer intimamente. Um indivíduo que ama priva-se, por assim dizer, de uma parte de seu amor próprio. Aguarda por recebê-lo através da doação deste outro. Segundo Freud, a finalidade e a satisfação de amar alguém é sentir-se amado. A espera ansiosa de que o objeto amado retribua a isso tem como efeito a redução da autoestima. Por isso, uma pessoa apaixonada tende a ser humilde, pois sente que seu destino está nas mãos de um terceiro. Outros, por sua vez, diante do risco eminente de não serem correspondidos, terminam primeiro. No fundo, toda fonte do amor é narcísica. Amamo-nos no outro. O amor se desloca para àquele que imagina ser capaz de suportar a sua verdade mais profunda. Mas, nem sempre este é apto a corresponder e sobreviver a isso. Tomando como referência J.Rickman: “loucura é não encontrar alguém que nos tolere”. A dor do término não está só na perda do outro, mas, de um pedaço de si mesmo nele. Por isso, ao separar-se, se faz compreensível a solicitação de que o(a) ex devolva "suas coisas": as cartas, as fotos, os bens, sendo esta uma tentativa de reintegra-se como indivíduo, o qual sentiu seu Eu despedaçado. Após declarar o fim, este nem sempre é tolerável. Sustentar brigas eternas podem ser saídas desesperadas para se negar o término ou evitá-lo por alguma outra motivação particular. Apontar falhas, faltas, acusar, no fim, culmina numa união e num adiamento do trabalho de luto de um "morto-vivo", o que mobiliza novos questionamentos, novos enigmas a serem respondidos: "por que deu errado? O que fiz? Será que não sente nada por mim?". Assim, se reinicia ciclicamente o fim.

 
 
AMAR É PARA OS "TOLOS", MAS TOLICE É NÃO AMAR

S egundo Jacques Lacan, psicanalista, "não é todo dia que encontramos aquilo que é a imagem exata do nosso desejo. Mas, quando encontramos, sabemos identificar". Quando assim sentimos, somos tentados a nos atrever arriscar o próprio ego por tal pessoa. Amar é estar vulnerável. Só ama e tenta outra vez quem for capaz de suportar a condição de ser ridículo. Aos que levaram revezes e assim não se aguentaram, é comum concluírem que: "ninguém presta" ou "agora, só vou curtir". Esses são artifícios maníacos-defensivos dos ressentidos. Frases típicas de quem não conseguiu superar as consequências frustrantes de sua aposta. Para não sofrerem mais os riscos de uma nova desilusão amorosa, passam a fazer economias sentimentais. Na clínica, isto se evidencia quando alguns pacientes neuróticos só vão a entrevista após certificarem-se do valor da sessão e se a técnica é garantida. Desejam muito, mas doam-se pouco. Na fantasia, anseiam que o mundo lhes restitua por suas amarguras e sensações de injustiças. O lugar de sofredor lhes dá um falso privilégio: de só ganhar sem colocar nada a perder. Num casamento, por exemplo, quando atribuem a culpa de sua infelicidade ao cônjuge, podem declarar-se como vítimas e, assim, se autopunem ao permanecer com quem sofrem. Aguardam que este mude, pois é "o errado(a)" da relação. Ademais, é usual alegarem que já atingiram uma "cota de sofrimento em vida", sendo resistentes à novos dessabores, portanto, nem amam, nem separam do(a) mesmo(a). Aos poucos, estagnam e se empobrecem afetivamente. É demasiadamente pretensioso fazer-se de tão autossuficiente ao ponto de nada precisar de alguém, bem como é igualmente artificioso fazer-se de tão miserável afetivamente ao ponto que nada de si possa dar.

DIVÓRCIO

N em todos entram em processo de luto após um término. Receber aos ouvidos: "eu não te amo mais" ou "devemos nos separar" podem ser falas impossíveis de se assimilar no início. Pode soar incompreensível, principalmente quando uma das partes ainda ama, pois encerra abruptamente todo o conteúdo enigmático inerente a relação amorosa, recriando o povoamento especulativo de imaginários acerca das razões que conduziram ao fim. Na medida que o amante não possui recursos internos para traduzir essa mensagem do ex-parceiro, o sujeito pode abrir mão de seu trabalho de luto, trocando o processamento solitário desta informação indigesta por uma resposta concreta, uma apuração investigativa repleta de perguntas diretas ao outro para saber qual é "a real verdade" escondida nessa fala (como se houvesse) recebida como obscena (para além da cena). Resgatando Nietzsche: "a exigência de ser amado é a maior das pretensões". Quando as soluções mentais entre os cônjuges falham, é frequente a utilização de outros recursos organizadores, a exemplo do divórcio litigioso. Sempre que a policia ou a Justiça são acionadas para resolver problemas de ordem emocional, é inevitável concluir que houve um colapso, um desequilíbrio da relação interpessoal (ou da intrapessoal de cada um). Em diversas ocasiões, essa saída torna-se uma via para se tentar pôr limites aos excessos pulsionais gerados com a nova relação sádico-erótica revelada. Quando se envolve filhos, isto também pode ocorrer. Em nome deles, ambos podem renunciar seu ódio, suprimir os conflitos e as diferenças. Por vezes, a criança também pode ser feita de substituto do cônjuge, ou, de objeto de ataque ao parceiro(a).

MEDO DO AMOR

A o fim de um relacionamento, muitos desencantados com o amor podem revelar-se excessivamente egoístas. Limitarem-se a contatos casuais e objetais a fim de evitar os perigos dos envolvimentos interpessoais. Conforme o quadro clínico, a solução pode vir por meio do suicido, do homicídio (crime passional), das drogas, do álcool ou da prostituição irremunerada de seus corpos. Sobre este último, certos sujeitos passam a se proteger da amargura de terem sentido-se "descartáveis" descartando, desvalorizando aos outros e, consequentemente, a si. É válida a hipótese disto ser uma espécie de vingança, um ódio disfarçado de "justiça". A ruptura do pacto amoroso é o estopim para o legalizar de condutas perversas antes reprimidas. É comum eclodirem daí os "serial lovers". Sedutores que sabem apenas despertar a paixão alheia. Livre da entrega íntima, restringem as relações "apenas ao sexual" - o anteparo de sua fragilidade afetiva-emocional. Anestesiam os medos gozando do lugar contrário a posição passiva e vulnerável. Ao acumular decepções, certas pessoas tendem a caminhar rumo à descrença amorosa e a solidão. Blindam-se afetivamente no intento de desviarem-se das repetições de fatos que não conseguiram elaborar. Sabotam-se quando se deparam apaixonados. Sem saber, alguns pacientes orgulham-se de um sofrimento pseudossuperado no lema: "solteiro sim, sozinho nunca". Ironicamente, creem ter triunfando por não mais se importar com a ideia de serem amados (supostamente). Inconscientemente, passam a assemelhar-se com as figuras que tanto condenaram ao desprezá-lo(a). No mais, continuam temendo o envolvimento e a entrega amorosa.

 
 
O PRINCÍPIO DO PRAZER NA SOCIEDADE

N os quadros melancólicos, a ausência do outro pode culminar numa perda da imagem ideal de si, pois, o indivíduo ao se ver abandonado, depara-se com a frustração da perda de sua falsa onipotência permeada pela figura do outro. Revela-se aí a sensação de um fracasso pessoal, propício ao contato com um vazio existencial. Esta falta do outro é a consequência dos seus excessos na vida do deixado. Num olhar mais, sociológico é natural que as relações na pós-modernidade sejam “líquidas”, como exaustivamente apresentou Bauman. Nela, o outro é feito de objeto para seu consumo e descarte. O hedonismo moderno permitiu a abertura de portas para o novo. Isto pode ser positivo quando não visa a fuga do contato com as questões inconscientes. Porém, geralmente, alguns pacientes estão preocupados em retirar magicamente seus conflitos emocionais. Ao terminar, deparam-se com a insuportabilidade de ficarem consigo mesmos. Muitos saem maniacamente em busca de suprir suas faltas elegendo instantaneamente um objeto substituo daquilo que perderam. Querem livrar-se de pensar, de entrar em trabalho de luto e superar a perda. Procuraram alívio imediato nos remédios, nas traições, nas viagens, no sexo compulsivo, etc. Nos consultórios, são vários os pretextos para deixar o tratamento, esquivando-se de entrar realmente em contato com seu sentimentos. A psicanálise sempre apontou o insucesso das pseudossoluções que estimulam a completude narcísica, a ausência de sofrimento e o apaziguamento da angústia do paciente neurótico. Como indicou Freud, o conteúdo o qual esses pacientes tendem a reprimir retornam ao consciente através de repetições.

AMOR X SEGURANÇA

N um olhar menos trágico sobre o tema, quando o amor é correspondido, é capaz que ocorra um reasseguramento pessoal. Amar ao outro pode ser natural quando avaliado como qualquer outra responsabilidade destinada ao próprio ego. Quanto mais alguém investe sua libido nos objetos externos, mais desinveste do seu ego, e vice-versa. Em citação a Freud: “a libido objetal atinge sua fase mais elevada de desenvolvimento no caso de uma pessoa apaixonada, quando o indivíduo parece desistir de sua própria personalidade em favor de uma catexia objetal". Isto ajuda a explicar porque muitos solteiros não conseguem estudar ou se dedicar a outras atividades pessoais neste estado civil. Somente conseguem fazê-las no momento que encontram alguém. No amor, podem reacessar a sensação infantil da função dos pais, revivendo ao lado do outro uma confortável impressão de estarem protegidos, do mundo ter garantias, de que haverá alguém para lhes cuidar caso algo aconteça de errado. Na colocação freudiana: "como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada!". A teoria winnicottiana reitera essa visão: quem perdera seu asseguramento amoroso pode achar dificuldades em amadurecer ou portar-se de forma destrutiva, como se nada mais valesse a pena, a exemplo das tendências antissociais.

DESORGANIZAÇÃO INTERNA

P ara Honoré de Balzac, é repulsiva a paixão que não se crê ser eterna. O término de um relacionamento pode desorganizar um paciente. Demandar dele um desligamento gradual da libido investida no objeto amado. Fazê-lo deparar-se com um destino o qual não sonhara, ficando ele sem saber o que fazer e como continuar sua vida. É uma tarefa dolorosa reconstituir-se. Para Adler, quando uma separação é associada a outras perdas não elaboradas ao longo da vida, sua experienciação tende a adquirir uma conotação traumática. O sujeito pode relatar sensações de pânico, solidão, angústia, desamparo, etc. Nesse sentido, naqueles intermináveis términos, repletos de indas e vindas, se vê uma forma de organização do sujeito perante aos sentimentos de abandono. A possibilidade de ainda sustentar alguma forma de contato com a(o) ex pode ser uma maneira menos assustadora do sujeito não vir a se desorganizar pela ausência do outro, ainda que seja espionando sua vida e buscando saber sobre ele(a) de forma indireta. Além disso, á posteriori, reencontrar o ex-cônjuge pode estimular fantasias de reaproximação. Nesses casos mencionados, podem surgir uma hipervalorização do parceiro(a) após a ruptura, vindo acompanhada de desejos possessivos, os quais não toleram que este(a) "seja de mais ninguém"." Evidentemente, tal exacerbação emocional possui ligação com à recusa em abandonar o antigo objeto de afeto subjetivo. Lacan nos lembra "que não se conhece nenhum amor sem ódio”. Para além disso, os desejos de retaliação e a vingança podem ser também consequências auxiliares do curso da elaboração do luto, pois denegrir, desvalorizar e rebaixar o objeto são formas do ego diluir suas conexões afetivas. Nesta raiva, se tenta dessignificar o objeto para separar-se dele.

 
 
DESLOCAMENTO AMOROSO

C omo observado, num término gerador de um agudo desapontamento, muitos desejam nunca mais sofrer por amor. Assim, alguns deslocam suas demandas afetivas para outros objetos. Frequentemente, canalizam-a nos animais (tais como gatos e outros carniceiros), nos bebês pequenos, em figuras excêntricas ou em líderes religiosos. Disfarçado de um viés ideológico, podem discursar sobre a crueldade do homem, como este é o vírus do mundo. Acabam por declarar uma espécie de amor platônico aos seres de “espírito puro”. Com esses, sentem-se seguros para doar-se sem medo, havendo uma justificativa lógica e aceitável do por quê não recebem deles coisa alguma. Se faz seguro para alguém que tornou-se pouco corajoso e "egoísta" apaixonar-se por "autocontentados". Passarem a se apaixonar apenas por figuras impossíveis. A rejeição de um amor proibido é menos dolorosa, não há tanta surpresa. Ademais, pode ser fascinante a autossuficiência e inacessibilidade destes. O fato de serem pouco sociáveis é admirável. Até os criminosos perversos se tornam atraentes. Não parecem frágeis e abaláveis. Entes sem paixões, os quais, à primeira vista, pouco carecem de amor. Figuras leais apenas ao próprio absolutismo, sem portar dúvidas e inseguranças a despeito de si. Aos frustrados no amor, esses outros viram objetos de inveja. Verificam neles um quase inabalável estado de espírito. Entidades livres da prisão da dependência afetiva. Parecem estar num patamar elevado por lançarem mão de serem amados. Freud chega a citar as figuras religiosas, os humoristas e políticos pela coerência narcisista com que afastam do ego qualquer coisa que os diminua. O contrário de quem sofre por amor. Para ele, a supervalorização de alguém é uma forma de "idealizar a si mesmo".

MEDO DE TERMINAR

N o entendimento freudiano, no amor, um neurótico pode buscar: o que ele próprio é (ele mesmo); o que ele próprio foi (o ideal dos pais sobre ele); o que ele próprio gostaria de ser (eu ideal); alguém que foi uma vez parte dele (algo que perdeu). Ou, uma função materna (anaclítica). Cada um num relacionamento determinará o papel de seu amado e de si perante a ele. Há casos que o medo de perder o parceiro não se dá necessariamente pela sua falta, mas, pelos seus excessos, pelos anos investidos, pelas recordações que transbordam, pela história construída, pelos símbolos que representam a união, pelos projetos que serão desfeitos etc. Enfim, como descrito, há nisso um medo de vir a se desorganizar com o novo, com uma liberdade não simbolizada, geradora de incertezas. O sujeito deparar-se-á com uma sucessão de dúvidas, angústias reveladoras de sua paúra acerca de um futuro sem garantias (como se houvesse). É normalmente nesse tempo que alguns procuram as respostas esotéricas. Quando já não conseguem lidar com suas indagações. tais como: "terei um novo amor em minha vida? Alguém me amará?". Diante do descontentamento amoroso e do pavor do indefinido, há casos que o sujeito sai a caça de um amante para não permanecer solto no "tempo-espaço", só conseguindo abandonar uma relação quando certifica-se que haverá outra disponível a sua espera. Na compreensão do psicanalista Donald Winnicot, a busca pela dependência continua é contrária a tendência natural ao amadurecimento pessoal.

DEPENDÊNCIA

T ratar uma relação conjugal como o alicerce central do Eu é fazer o parceiro(a) arcar com o peso de suas fragilidades emocionais. É utilizá-lo para fins terapêuticos. Almejar que alguém o torne feliz é confortável, tanto quanto deixar na mão deste(a) a decisão de terminar o relacionamento que lhe molesta. Para o filósofo Immanuel Kant, é cômodo "ser menor". Representa aceitar a tutela. Agarrar-se num outro disponível e fazê-lo garantia de segurança emocional, econômica, social e espiritual. Isto é tornar o amor num instrumento de reparação das desordens pessoais. Quem se preocupa com que suas relações se infantilizem e causem dependência, no inconsciente desconhecem que assim a desejam. O medo de ficar só ao separar-se, de não vir a ter recursos emocionais e/ou financeiros, pode tornar um relacionamento fracassado num interminável. Na falta de coragem para finalizá-lo diretamente, há formas indiretas de se consumar a isso: deixando rastros de traições, recusando-se a transar com o parceiro, ou no próprio adoecer emocional, etc. A pusilanimidade para terminar o relacionamento pode trazer um final trágico ao invés de um construído pelas vias da sinceridade e respeitoso para consigo e com o outro.

 
 
AMAR É BRINCAR

N o compto geral, ter um amor é importante. É inegável que pode auxilar o sujeito a sentir-se encorajado para enfrentar as dificuldades da realidade. No sentido winnicottiano, o relacionamento amoroso é concebido como um "espaço potencial". Junto ao campo sexual, são as válvulas de escape do homem civilizado. Áreas as quais podem inventar as próprias regras, fazer o impossível, (re)experimentar o que é ser criativo, inventar um novo universo dentro do mundo. Porém, nem todos assim conseguem. Especialmente por questões transferenciais, muitos reprimem seus instintos com seus parceiro(a)s. Esbarram em dificuldades. Podem recear partilhar suas sadias "insanidades" para com amado e, por conta disso, empobrecem sua relação. A visão psicanalítica certifica que diante do objeto de amor se esbarra na própria castração e no medo do indefensável. Não à toa, certos pacientes só conseguem desejar as figuras que não amam. Apenas com essas reencontram a sua virilidade, posição a qual colocam em suspensão diante de seu verdadeiro objeto de amor que o ameaça! O sentimento de ternura pode instaurar uma espécie de cisão entre o amor e o desejo sexual, tal qual a relação com os pais. Nesse sentido, algumas traições, o culto a poligamia, as tentativas de abrir o relacionamento surgem como soluções psíquicas.

O CAMPO ERÓTICO

S em o articular das vicissitudes pulsionais, o relacionamento esfria, corre o risco de acabar. Limita-se apenas a repetição diária da vertente afetiva (cuidado, segurança, companheirismo). Embora a "amizade" seja o melhor caminho da vida conjugal, como dissera Aristóteles, ele requer o complemento de uma segunda esfera: a sensual. Esta é do campo criativo. Um brincar, no sentido de compartilhar as realidades subjetivas de cada um como possibilidades reais. Apenas esta surpreende, oferece o novo de novo, tira do óbvio, do ócio, da rotina, não segue o script de trabalhar, voltar para casa, ver o celular e jantar. Envolve surpresa, a legalização das "perversões", o atuar das fantasias íntimas e do imaginário com o parceiro(a), realizando-os quando consentido e possível. Todavia, o sexo não une, nem aproxima ninguém. O que une no ato sexual é só a crença dos amantes de que isto estará os unindo. O gozo é solitário, mesmo o simultâneo. À dois não há um pré-concebido. A única regra é a que se acorda. Relacionar-se e conviver com alguém não é uma tarefa simples! É ter o egoismo afrontado diariamente. Requer aprender o idioma íntimo do outro e este o seu. A felicidade amorosa, como qualquer outra, é transitória. Se os amantes não souberem recriar-se, o relacionamento se reduz a mais um cumprimento dos deveres socioculturais.

AMAR É DAR A PRÓPRIA FALTA

A o amar, todos estão sujeitos à condição de serem enganados e "feitos de idiota". Tentar ser feliz amorosamente é uma necessidade humana, realizá-la é do âmbito da sorte. Ao contrário do que pensa o senso comum e os deterministas, achar um amor é um encontro por acaso, não se pode prever e nem dominar. Diante da intenção dos outros somos vulneráveis. Após entregar-se num relacionamento, ilude-se quem vigia ativamente as ações do amado para não sofrer. Nem mesmo a melhor fiscalização do outro é capaz de aliviar a verdadeira angústia humana: a de ocupar o lugar passivo e vulnerável diante de alguém. Na verdade, a real ameaça não está no outro, o qual controla, mas em si, na própria fragilidade ao ver-se indefeso frente a incerteza do pacto amoroso e de ser amado. Há par amoroso que não seja criado pela fantasia? Ao amar, o indivíduo torna-se descentralizado de si, posição a qual atesta sua falta perante a quem se ama. Dizia o psicanalista J.A.Miller que "só se ama numa posição feminina". Amar feminiza. Por isso, a expressão amorosa de um homem pode soar cômica e ridícula. Por outro lado, somente alguém de fato seguro de sua virilidade pode ser piegas e submeter-se a dar sua indefensável fragilidade. Amar é ser capaz de doar a própria falta ao outro. É oferecer o que não se possui. Isto vai além de comprar objetos. É atestar precisar do amor alheio. Um sentimento que dirige-se àquele que se pode dar a sua suscetibilidade, faceta a qual o sujeito social não é amado (posição castrada).

 
 
O AMOR É TECIDO NA MALHA DA FANTASIA

A experiência amorosa é essencialmente um fenômeno enganador. O objeto que causa o desejo não é o parceiro em particular, apenas a contrapartida do sujeito da fantasia. O verdadeiro objeto de amor, não tem nome, nem imagem, ele é a causa de angústia, sendo ele "anônimo e desconhecido" por excelência. Em vista disso, não é de se estranhar os términos por desilusão com o cônjuge. Isto não necessariamente se deve em função de uma mudança do parceiro(a), mas, justamente por deparar-se com o fato que este(a) sempre foi o(a) mesmo(a). Há casamentos que duram apenas por perseverança, por aguardar que o sujeito amado do inconsciente se materialize no cônjuge. A fim de ilustrar, recordo-me de uma paciente casada que dizia ter um marido maravilhoso "quando não bebia", então, perguntei-lhe: "há quanto tempo seu marido bebe"? Sua resposta foi: "Faz 17 anos". Através da indagação, pôde ela conscientizar-se que há quase duas décadas não via o homem por quem se apaixonou. Uma parte considerável das cobranças e dos acessos de raiva deslocados ao parceiro muito tem a ver por este não ser e fazer o que se imaginava. Atacá-lo pode ser tanto uma forma de mascarar a fragilidade como também um jeito de reivindicar a presença de algo do próprio imaginário. Na experiência clínica, com frequência se constata que numa consumação de um término, a verdadeira dor sentida pelos cônjuges não se deve à perda da pessoa amada, mas pelas desarticulações internas das fantasias criadas em torno dela.

UM CONTATO ENTRE DOIS ESTRANHOS

A relação amorosa é um labirinto sem mapa. É essencialmente constituída por encontros e desencontros. Não há fórmula, nem solução. Com o passar dos tempos, muitos casais se questionam sobre o que aconteceu com aquela felicidade amorosa do início. É uma saída caracteristicamente neurótica tentar condicionar o amor a fixação de um prazer já encontrado anteriormente. Almejar a repetição da euforia do começo de uma paixão pouco pode ter a ver com a qualidade do objeto amado, mas com o fato de enamorar-se pela fase do enamoramento. Os apaixonados são um outro e um mesmo. Perder o fusionamento da paixão pode ser frustrante. Entretanto, oferece a oportunidade de descobrir quem o outro não é. Narciso no mito do poeta Ovídio morreu afogado por enamorar-se pelo seu reflexo nas águas. O destino da cegueira do amor narcísico conduz a um final trágico. Será possível amar aqueles que fogem aos nossos ideais narcisísticos? Em todo reflexo há sempre uma identidade confirmada e a uma identidade roubada. Em referência ao poema C. Drummond de Andrade: "os amantes se amam cruelmente/ e com se amarem tanto não se veem: Um se beija no outro, reflectido. Dois amantes que são? Dois inimigos". Segundo Freud: “não se pode negar que o odiar, originalmente, caracterizou a relação entre o eu e o mundo externo alheio". As paixões podem se dar instantaneamente, já o amor requer esforços, ser capaz de integrar um "não Eu", poder amar uma alteridade.

 
 
CONSOLIDAR O AMOR É IMPOSSÍVEL

N a compreensão de Lacan, o amor pressupõe-se a formação de um par impossível de se materializar, mas sustentado pela via do significante. Consolidar o amor é intangível e impossível, pois trata-se de uma abstração. Porém, é exatamente por isso que se ama, se casa e se namora. Tenta-se de alguma forma materializar o inconsolidável. A linguagem é obstáculo ao gozo pleno. Portanto, desde o seu início, o amor está fadado ao fracasso, ao término. Nenhuma relação é feita para dar certo e é justamente por esse motivo, por ela estar destinada ao fim, é que se deve amar, doar o melhor de si e receber o melhor do outro. Sem admitir e demonstrar que se se tem necessidade do outro, os amantes nunca saberão se há amor. E, mesmo se assim o fizerem, terão dúvidas e, sem dúvidas, não carecerão de demonstrar e reconfirmar o seu amar! Assim, continuaram eternamente sem saber, por isso, dizem, confessam, declaram-se, pois o é inatingível. E para melhorar (ou piorar), nenhuma relação amorosa sobrevive só de belos discursos e promessas, a um jogo só de palavras. Ela pede ato! Corpo! Esforço! Provas! Novamente e de novo! E, mesmo assim, nenhuma confirmação será suficiente. E se fosse? Para que amar? As palavras, como o amor, são fugazes, constroem e destroem sentidos. A falta está tanto na palavra quanto no amor. É impossível formar um. Aos desiludidos, aos que já saborearam sucessivos "fracassos", os que conheceram os malogros do amor, a estes pode ser conveniente desistir. Porém, aos que ainda creem, aos que salvaguardam alguma esperança, resta-lhes perguntar: "arrisca-te"?